sábado, 24 de outubro de 2009

O lançamento do novo romance de António Lobo Antunes: "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?"

Ontem tive o grande prazer de estar presente ao lançamento do mais recente livro do A. Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, e, apaixonado que sou pela sua obra, fiquei, inicialmente, frustrado por não acontecer o também aguardado momento de autógrafos. Mas foi tudo muito compreensivo, pois o autor prolongaria a festa, para nós, leitores, estudiosos da sua obra ou interessados por motivos diversos, com uma entrevista marcada para os minutos seguintes em um canal de televisão. Após um vinho e ter adquirido um dos belos cartazes de divulgação do livro, expostos no belo salão do Teatro São Luiz, retornei para casa para ouvir a entrevista.

A entrevista a L. Antunes resultou em frases que me levaram a reflexões, paisagens descritas como páginas de um romance que atrai, a mistura entre a seriedade e a ternura. Frases que ficaram como um eco, por exemplo, ao ser questionado sobre o seu tempo e a sua disponibilidade para a escrita: O que é mais esgotante é o intervalo entre os livros. A expectativa quanto ao livro seguinte e se ele vira! Um ar de angústia, um silêncio, a despedida do livro que agora não é mais apenas seu. Ficou, também, a sua intensidade marcada ao fazer referência a uma passagem do romance de C. Dickens, Tempos difíceis, (-“Tenho a impressão que é melhor ir para o quarto, mas não sei se me pertence”) numa relação ao ato de escrever, o não saber se o livro pertence ao autor. Lobo Antunes narra com tamanha harmonia, o que me faz ouvir ainda mais nítida a voz das suas personagens.

O episódio da gravata. Outro momento marcante da entrevista. A gravata e as suas metáforas, numa contextualização densa e marcante. A percepção sensível de um escritor que, numa sala de espera num hospital público, por conta de um tratamento, revistas sobre a mesa, e que ninguém lia, “cada pessoa fechada em sua bolha de solidão”, e ele a observar um “senhor já de muita idade”, um camponês, “sempre com o mesmo fato” manchado, mas que quando o chamavam, para a sua possível consulta, ele avançava como um príncipe. Diante do escritor, a possibilidade de mais um caminho para um dos seus textos - pensei comigo mesmo, pensamentos que nos invadem, e pensei um pouco mais, em meu fluxo de consciência - além da sua sensibilidade de observar a grandiosidade presente na vida simples, bem simples de um camponês que era príncipe.

Sobre a mesa da entrevistadora, um livro: Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?. Agora, talvez, nem aconteça o esgotante intervalo, pois, como anunciado pelo escritor, logo chegará um livro de crônicas, certamente mais um lugar de deleite.

Encerro o meu comentário com um outro, feito por L. Antunes a respeito dos escritores. “É melhor lê-los, e não querer conhecê-los.” Não sei. Isso eu realmente não sei. Se digo que sim, se digo que não. Fico com essa incógnita, pois, por exemplo, deve ser muito prazeroso as conversas que acontecem nos encontros às quintas-feiras com os seus amigos. Mesmo que não haja, ali, espaço para a literatura. Mas ali está o escritor, com a sua bagagem cheia de coisas, objetos e diálogos, material que podem pular para as páginas dos livros.

Comentário postado no blog António Lobo Antunes. http://alawebpage.blogspot.com/ . Texto: Grande entrevista com António Lobo Antunes, de José Alexandre Ramos. 22/10/2009.

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