domingo, 17 de janeiro de 2010

Sobre a crônica "O vestuário dos pássaros" de António Lobo Antunes

Tão bela a crônica “O vestuário dos pássaros*” de A. L. Antunes! Um texto simples sem ser simples, quando a simplicidade nos diz tantas coisas que marcam, que ficam, que faz surgir vida das coisas; e dos espelhos faz refletir uma infinidade de reflexões, movimentos pelo interior do ser e que nos levam a uma viagem que percorrem por paisagens da memória.

O homem diante do espelho: “De vez em quando olhava-me com estranheza de ser aquele e não nos falámos, claro. […] um desconhecido para mim; [...] não tínhamos nada a dizer um ao outro, de que raio de assuntos podíamos conversar?” Uma pausa diante da interrogação. Respostas pessoais, íntimas, fotografias reveladas e outras que ainda serão trabalhadas pelo fotógrafo que somos. Somos fotógrafos permanentes: fotografias que colocamos em grandes porta-retratos e fotografias outras guardadas. Rasgadas são algumas. Apenas rasgadas, e o destino dos pedaços é incerto: pedaços que se refazem e outros não.

Lobo Antunes é um dos meus preferidos escritores e criadores de imagem. Todos os seus textos garantem um deleite e não há aquela expectativa de ser ou não ser uma leitura de grande prazer. A expectativa é conhecer qual é o novo grande prazer que ele nos proporcionará ao iniciarmos a leitura de cada um dos seus textos. Assim é “O vestuário dos pássaros”, que tem o seu início em uma, aparentemente, cena simples do dia de ontem. Um “restaurantezeco” onde o nosso narrador come e restava apenas uma mesa vazia. Era o lugar da escrita: “apenas ao sentar-me dei conta que ficava diante de um espelho e portanto almocei comigo.” Dai a crônica prossegue, e em poucos instantes gavetas são abertas com coisas do passado. Do presente. Do futuro. Enquanto as coisas se movimentam numa terna ventania: “A varanda da sala onde junto estas palavras está fechada e contudo parece--me existir vento nas coisas.”

Ao concluir a minha primeira leitura da crônica, não hesitei e deixei ali a minha impressão:

Mas existe sim vento nas coisas, ainda que a varanda da sala esteja fechada, e tudo ao redor pareça silêncio. Existe sim o vento que surge das folhas que deixam de ser brancas ao deslizar das palavras impregnadas de sentimentos. Palavras que se encostam em outras palavras e juntas se libertam do abandono e criam imagens que fazem vento, muito vento. Uma ventania de prazer denso, intenso, vida (re)construida, vida rememorada de maneira especialmente antuniana: bela, não importa a paisagem do instante. I. L. Andrade

*Revista Visão Online, 7 de Janeiro de 2010: http://aeiou.visao.pt/o-vestuario-dos-passaros=f543409

3 comentários:

  1. Querido amigo, li e gostei muito do texto. Você é um artista Ismar, você pinta belíssimos quadros com sua matéria-prima, o signo, a letra. Te admiro muito, muito mesmo!!!

    Bjs,

    Cláudia.

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  2. Também gostei. E em vez de ficar como comentário que fez no blogue do site ALA, fiz do seu texto também um post no nosso blogue.

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  3. O que mais posso dizer? Só que me orgulho de sua sensibilidade e talento, amigo. Poder perceber um texto de Antunes sob seu olhar é uma lição que não é para qualquer um. Por isso, me orgulho.
    Beijo grande
    Eneida

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