quinta-feira, 25 de março de 2010

"Antes que os morangos apodreçam" III

Comecei a escrever o Capítulo 4 do romance. Estou na sexta página, e ontem parei ao me deparar com um impasse por causa de uma chave: não me sentia seguro se “aquela” deveria ser ou não a chave de uma certa porta, em um determinado momento. Cada capítulo, embora seja a continuidade dos anteriores num entrelaçar da trama, é também uma etapa independente, a sensação de que uma nova história, que não aquela, vai acontecer. Apenas uma sensação, pois a ´nova história` é determinada pela ´velha história`. É a minha experiência pessoal, depois do experimentar a escrita de contos e a sua velocidade exigida sem que se perca o fio das coisas.
A mudança de espaço ou mesmo a sua permanência faz com que tudo seja novo. Um objeto que cai, um inseto que surge, um pensamento no lugar da realidade, tudo, enfim, transforma o ambiente que inicia um novo capítulo, o ambiente que pode ser a mesma sala de antes, num momento imediato ao anterior.
Como comentei na postagem anterior, depois que conclui o Capítulo 3 fiquei talvez uma semana sem escrever. Fiz, portanto, o Relatório, 20 páginas, para a transição do doutorado para o modelo Bolonha, e depois senti uma vontade e uma necessidade de ler um romance, um texto sem vínculo direto com o que venho lendo com um propósito mais específico. Li então uma excelente sugestão da minha cara amiga e doutoranda em Estudos Portugueses, Cláudia Souza, que vem acompanhando a leitura dos capítulos escritos, e eu inquieto para saber da sua valorosa opinião.
A sugestão. F. Dostoiévski, “Cadernos do subterrâneo”, versão portuguesa de Nina Guerra e Felipe Guerra, para a Assírio & Alvim, traduzido também por “Memórias do subsolo”, versão brasileira. Um perfeito exemplo de fluxo de consciência, além da excelência do texto. É, eu sei que eu estou falando de Dostoiévski. A leitura sugou o meu fôlego no melhor sentido da palavra e do prazer. O tempo voou. Nem vi o tempo voando.
“Meus senhores, claro que estou a brincar, e eu próprio sei que ando mal ao brincar assim, que nem tudo pode ser levado na brincadeira. Talvez esteja a brincar rangendo os dentes. Senhores, estou atormentado de questões, resolvam-nas por mim.” (p. 53).
E na sequência densa do texto…
“Passou-me pela cabeça um pensamento lúgubre, percorreu-me o corpo como um arrepio de repulsa, um pouco como que se sente quando se entra numa cave húmida e bafienta.” (p.134).
E o tempo voou. Retornei à minha escrita, e espero que o tempo também voe, e o romance caiba dentro deste tempo.

quinta-feira, 11 de março de 2010

"Antes que os morangos apodreçam" II

Acabei de escrever o terceiro capítulo do romance de título provisório “Antes que os morangos apodreçam”. Pouco antes das 9 horas da manhã, depois de muita inquietação sobre o destino da narrativa, consegui colocar um ponto final, depois de 20 páginas que, juntas com as demais, somam agora 63 páginas já escritas. Digo “já” pois, pelo menos para mim, trata-se de um processo árduo, embora misturado com o grande prazer de sentir a construção de cenários, diálogos, personagens e tensões. Repito. O texto avança, e descobertas vão acontecendo: o planejado e o imprevisível, quando a própria escrita pode surpreender o autor por caminhos inesperados.
Escrever 20 páginas é antes ter escrito mais 20, num retocar de palavras, frases e substituição do que parece ou realmente é o mais adequado, o mais lógico, o que mais se envolve com a clareza e intenção do que se pretende. Ontem, já no final da tarde, uma página pareceu pronta em poucos minutos, depois de uma luta durante a manhã quase inteira para que a mesma sensação se desse na construção de um único parágrafo que não conseguia se dar por satisfeito, por completo, numa batalha entre as palavras. As palavras são assim. As palavras e as frases. Brigam entre elas até que se afinam e se satisfazem com uma harmonia pretendida. E depois, em outro momento, após um estado do repensar, podem ainda decidir que não, e que falta algo, ou algo existe em excesso. A falta e o excesso podem ser um perigo para o texto.
Neste momento de prazo para ser comprido, relatório da minha pesquisa sobre L. Antunes e A. Torres, coincidentemente 20 páginas exigidas pela Universidade, preciso de um breve tempo para começar a percorrer as páginas ainda vazias do quarto capítulo. Nem é exatamente o vazio, afinal, o caminho está aberto e os passos foram iniciados a partir do primeiro capítulo, melhor, do primeiro parágrafo, primeira cena. É dar seguimento às ações, interlocuções, o poder das palavras.