terça-feira, 27 de outubro de 2009

Enquanto as Folhas São Espalhadas pelo Vento

Chegou em frente à porta com o coração batendo tão forte que imaginou cair antes de tocar a campainha. Ficou ali parado por quase dez segundos com as mãos coladas à boca. Queria chorar. Não, não queria chorar. O peito já tornara dolorido pela saudade. Queria mesmo era gritar e destravar a garganta com palavras que nunca mais foram ditas. Com as mãos trêmulas, levou o dedo à campainha e o deixou ali parado ainda sem tocá-la. Apesar de saber o que se passava lá dentro, não queria ficar imaginando certezas que lhe doíam nos lugares mais sublimes do coração.

Dali de fora, sentia o extremo silêncio que vinha de dentro da casa, guardado entre portas e janelas fechadas. Os olhos se encheram de lágrimas, ele comprimiu a respiração, e desistiu de tocar a campainha. Soltou a pequena mala no chão, voltou o olhar para a rua sem movimento, se encostou na parede e quase não suportou a imagem das flores que não mais existiam naquele pequeno jardim. Olhou para o alto, fitou bem aquele azul, o ultrapassou em seus pensamentos e, por alguns segundos, resistiu ao calor do sol dentro dos seus olhos. Em seguida, levou as mãos ao rosto, vedou os seus olhos, e respirou angustiadamente entre elas. Ainda encostado naquela parede aquecida pelo sol, friccionou o peito. Depois, friccionou a cabeça, os ombros, os braços, as mãos e, novamente, o peito. E continua sem saber se o seu desejo era de gritar ou de chorar.

Bruscamente, se voltou à porta e tocou a campainha. Sabia que não haveria ninguém, mas, por duas ou três vezes, a tocou deixando o seu dedo prolongando uma chamada que só mesmo ele ouvia. O som ecoava por toda a casa vazia, enquanto as suas recordações percorriam por cada um dos seus cômodos. Só então pegou a sua pequena penca de chaves, de onde ele nunca retirou as que abriam aquela casa. Chave da porta lateral, acesso direto à cozinha. Comprimiu-a dentro da sua mão e, com as mãos suadas, destrancou e abriu apenas o suficiente para que ele passasse. Veio ao seu encontro aquele impactante cheiro de poeira, de casa fechada, e aquele ar meio abafado por janelas que nunca mais foram abertas. E veio aquele tão forte cheiro de saudade que lhe parecia sair de todas as gavetas, de todas as frestas, de todos os objetos e cômodos. Ele parado na porta enquanto o resto da claridade da tarde iluminava a primeira imagem do interior da casa: a cozinha, que antes silenciava apenas quando todos dormiam. Era sábado, dia daquele cheiro de bolos e de pãezinhos que aromatizavam toda a casa. E eram tantas vozes, e tantas palavras, e tantos sorrisos, e a sua voz, e as suas palavras, e os seus sorrisos. E agora este cheiro de bolo e de pãezinhos misturado com o cheiro de poeira, e misturado com a saudade que nem palavras existiam para explicar. Era ela, a mãe, quem comandava toda a felicidade! Lembrava do resto da casa, e respirava fundo cavando forças perdidas pelo tempo.

Sempre em passos lentos, foi em direção à sala de jantar. O seu olhar mantendo a melancolia das recordações impregnadas na casa. Mesmo com a tarde caindo, ele insistia em não acender as luzes, aproveitando todo o restante da claridade. Avistou tantas portas fechadas. Quartos e banheiros. A garganta ainda mais seca. Apressou os passos de volta à cozinha, abriu o armário e, da torneira da pia, tomou um copo transbordando de água.

Voltou à sala e acendeu todas as suas luzes.

A mesa rodeada por tantas cadeiras e coberta por um lençol branco já empoeirado. Os sons de pratos e talheres transformados em vazios. Um cheiro de dias de aniversário tomou conta da sala. Aquele lençol branco, cobrindo a mesa e cadeiras, provocou outras lembranças e reduziu o coração. Virou-se de vez, se encaminhou a cada um dos quartos e, diante das portas, ficou observando camas, janelas, guarda-roupas, tapetes e quadros. Travesseiros e cobertores guardados. Faltava ainda mais um quarto a ser aberto, mas, deste, ele nem chegou à porta e desviou o seu olhar. Foi à sala de estar e, cautelosamente, abriu parte de uma janela. Sentou-se no sofá, deitou, e sentiu vontade de dormir por muito tempo. Olhou para fora, o sereno batia em seu rosto e, com a respiração às vezes bloqueada, fixava o olhar sobre o céu.

Ouvia vozes, ouvia sorrisos, gargalhadas espirituosamentes abertas, brincadeiras como de criança. Visualizou o seu rosto dormindo nos cochilos das tardes, o eco da sua voz, os segredos repartidos, os seus movimentos pela casa, seus carinhosos bilhetes com beijos e abraços e amor, o seu beijo, o seu abraço, o seu amor, as fotografias espalhadas e vivas na memória. Era ela!

Minutos depois, se levantou decidido a abrir a porta daquele quarto que faltava. Apesar do impulso de desistir, o abriu de imediato e logo acendeu as suas luzes. As pernas afundadas num tempo que nunca retorna, e o coração palpitando tão forte em meio à primeira imagem captada: a cama de casal. O travesseiro guardado para sempre. E, o outro travesseiro, não resistindo ao silêncio, também havia partido. “Mas não adianta! A saudade e as lembranças estão na memória. E esta nos acompanha aos lugares mais distantes!” desabafou. Ninguém resistiu, e a casa é estranhamente outra.

Todas estas cenas diante da porta. Todos os móveis ainda na mesma posição. Olhou a penteadeira, também coberta por um lençol branco, e ali estavam todos os porta-retratos da casa. Um bem junto ao outro, e cobertos. Vontade de ver aquelas fotografias! Queria desta vez ter coragem de contemplar uma a uma e, então, sem pensar muito, se encaminhou à penteadeira e levantou aquele lençol branco. Todos os porta-retratos estavam de costas para ele e, os que estavam junto ao espelho refletiam olhares em seus olhos. Um olhar, em especial, foi direto ao seu. Era ela, naquela fotografias entre preferidas. Imediatamente a tomou em suas mãos e, com a imagem acinzentada pelas lágrimas, olhou bem naqueles olhos enquanto se encaminhava em direção à cama. Ajoelhou-se com aquela fotografia em suas mãos, se inclinou sobre o colchão e se entregou a um choro compulsivo. E alto, e forte, e denso.

Ficou naquela mesma posição por quase meia hora. Depois, deitou-se no chão, abriu os braços e pensou em tantas felicidades. Levantou-se, olhou para o guarda-roupa e, certo de que não deveria abri-lo, saiu do quarto deixando a porta entreaberta. Voltou à sala, deitou-se no sofá e estendeu o porta-retrato sobre o seu peito. O olhar fixo no vazio do teto e grudado nas serenas recordações. Inclinou a cabeça para a janela aberta e, por tanto tempo, ficou olhando para o céu.

Horas mais tarde fechou os olhos, enquanto ouvia um suave ruído de folhas secas sendo espalhadas pelo vento.

In: Enquanto as folhas são espalhadas pelo vento. Edições UESB, Ba, Brasil. 2002.

sábado, 24 de outubro de 2009


O lançamento do novo romance de António Lobo Antunes: "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?"

Ontem tive o grande prazer de estar presente ao lançamento do mais recente livro do A. Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, e, apaixonado que sou pela sua obra, fiquei, inicialmente, frustrado por não acontecer o também aguardado momento de autógrafos. Mas foi tudo muito compreensivo, pois o autor prolongaria a festa, para nós, leitores, estudiosos da sua obra ou interessados por motivos diversos, com uma entrevista marcada para os minutos seguintes em um canal de televisão. Após um vinho e ter adquirido um dos belos cartazes de divulgação do livro, expostos no belo salão do Teatro São Luiz, retornei para casa para ouvir a entrevista.

A entrevista a L. Antunes resultou em frases que me levaram a reflexões, paisagens descritas como páginas de um romance que atrai, a mistura entre a seriedade e a ternura. Frases que ficaram como um eco, por exemplo, ao ser questionado sobre o seu tempo e a sua disponibilidade para a escrita: O que é mais esgotante é o intervalo entre os livros. A expectativa quanto ao livro seguinte e se ele vira! Um ar de angústia, um silêncio, a despedida do livro que agora não é mais apenas seu. Ficou, também, a sua intensidade marcada ao fazer referência a uma passagem do romance de C. Dickens, Tempos difíceis, (-“Tenho a impressão que é melhor ir para o quarto, mas não sei se me pertence”) numa relação ao ato de escrever, o não saber se o livro pertence ao autor. Lobo Antunes narra com tamanha harmonia, o que me faz ouvir ainda mais nítida a voz das suas personagens.

O episódio da gravata. Outro momento marcante da entrevista. A gravata e as suas metáforas, numa contextualização densa e marcante. A percepção sensível de um escritor que, numa sala de espera num hospital público, por conta de um tratamento, revistas sobre a mesa, e que ninguém lia, “cada pessoa fechada em sua bolha de solidão”, e ele a observar um “senhor já de muita idade”, um camponês, “sempre com o mesmo fato” manchado, mas que quando o chamavam, para a sua possível consulta, ele avançava como um príncipe. Diante do escritor, a possibilidade de mais um caminho para um dos seus textos - pensei comigo mesmo, pensamentos que nos invadem, e pensei um pouco mais, em meu fluxo de consciência - além da sua sensibilidade de observar a grandiosidade presente na vida simples, bem simples de um camponês que era príncipe.

Sobre a mesa da entrevistadora, um livro: Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?. Agora, talvez, nem aconteça o esgotante intervalo, pois, como anunciado pelo escritor, logo chegará um livro de crônicas, certamente mais um lugar de deleite.

Encerro o meu comentário com um outro, feito por L. Antunes a respeito dos escritores. “É melhor lê-los, e não querer conhecê-los.” Não sei. Isso eu realmente não sei. Se digo que sim, se digo que não. Fico com essa incógnita, pois, por exemplo, deve ser muito prazeroso as conversas que acontecem nos encontros às quintas-feiras com os seus amigos. Mesmo que não haja, ali, espaço para a literatura. Mas ali está o escritor, com a sua bagagem cheia de coisas, objetos e diálogos, material que podem pular para as páginas dos livros.

Comentário postado no blog António Lobo Antunes. http://alawebpage.blogspot.com/ . Texto: Grande entrevista com António Lobo Antunes, de José Alexandre Ramos. 22/10/2009.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Como um liquido oleoso deslizando sobre a pele

Era para ter ido hoje. Não fui. De repente uma falta de disposição de levantar-me desta cadeira, descer as escadas, e, antes de descer as diversas escadas, ainda ter que cumprir cada uma das etapas que me deixariam pronto. Para sair. Era para ter ido, mas o meu estado de comodidade por conta do olhar dividido entre o livro aberto com todas as suas folhas expostas diante de mim e o  texto lido  com o seu conteúdo em alto-relevo foi mais forte: devorou parte do prometido para o dia de hoje. Sabe aquelas leituras que deixam a gente impactado, envolvido, invadido pelo poder das palavras, as frases e todas as coisas que daí surgem e se espalham pelo corpo e sentimentos como um liquido oleoso deslizando sobre a pele? Sabe aquela frase, pequena até, mas que funciona, como um vulcão pelo nosso interior, e percorre as entranhas em pleno gozo, orgasmo, dor ou melancolia? Sabe aquele livro, aquele filme, aquela música, aquele velho papel ou cartão criteriosamente guardado por um motivo do qual apenas cada um de nós conhecemos? Sabe?

(Era para ter ido Era. Mas não fui.). E não foi a primeira vez que uma promessa foi rompida. Falo até mesmo de promessas banais, força da palavra. A lata de leite condensado que eu nunca mais tomaria quase toda de uma só vez é um exemplo do qual não esqueço. Digo de coisas “simples” assim, o tablete inteiro de chocolate que várias vezes eu jamais, jamais comeria como se estivesse almoçando. E outras promessas que estão fora de caixas e latas. Amanhã, amanhã… tantas coisas são empurradas para o amanhã, amanhã que nem sempre é o dia imediatamente seguinte, mas outros.

Lembro-me de uma poesia que eu, um dia, prazerosamente, tive que decorar, na época da minha graduação, para apresentar em uma atividade. Fernando Pessoa. Álvaro de Campos. Adiamento, foi a poesia: Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... / Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,/ E assim será possível; mas hoje não.../ Não, hoje nada; hoje não posso.

Têm dias que não dá mesmo! É dia de ficar “debaixo do cobertor”, expressão que pode significar uma infinidade de coisas, como para mim, ontem, significou: a) reler O Estranho, texto onde Freud apresenta, entre os demais tópicos, o estranho e o familiar, o escritor imaginativo e o escritor criativo; b) ficar ali pensando, pensando, pensando até me fartar e depois pensar um pouco mais; c) rabiscar algumas coisas; d) andar um pouco pela internet; rever passagens de textos de escitores que tanto gosto, mistura de prazer e, digamos, necessidade; e) a geladeira, o biscoito, o pedaço de bolo, o queijo com geleia de pimenta que eu trouxe do Brasil, e mais pensamentos com o teto branco diante dos meus olhos.

Abro a janela e olho lá fora, enquanto imagens se repetem e se fazem novas. Milhares de pedras fazem ruas e calçadas da bela Lisboa.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Um telegrama mais extenso

17:03. Decidi. Fui. FNAC. Chiado. Avenida. Pensamentos. Festa do Cinema Francês. […]. Agnès Varda. “As Praias de Agnès”. […].  Memória presente. Nostalgia. Lacunas abertas e lacunas fechadas. [Um diálogo quase silencioso. Quase]. A emoção do filme, no filme, pelo filme. [A outra emoção na penumbra clara]. As praias. A vida dentro do filme. Objetos. Imagens. Fotografias. Celebrações. Fragmentos. Partes perdidas. Partes encontradas. Despedidas. O fim de um filme é o fim da história? […]. Fim. [Um diálogo menos silencioso]. Livros. Prateleiras. Corredores. Livros. Arte. […]. “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar”. “A câmara clara”. Livros. Livros. [Sem silêncio]. […]. [A chave]. [A chave]. 21:42. Fim.

sábado, 17 de outubro de 2009

O velório da avó


Véspera de feriado, e Márcia saindo do trabalho com os seus planos mudados para este dia. Já não viajaria, pois o feriado tornou-se um velório ao qual ela não poderia faltar. A avó de um dos seus colegas de trabalho morreria no decorrer daquela noite, e a sua presença era contada. Amiga até a morte era ela.

Esta seria a segunda vez que a velha avó morreria, e ela garantia com a pureza da sua alma de que da meia-noite não passaria nem um minuto. Apesar de a primeira ter lhe rendido quase um ano de vida, não dava para duvidar da segurança da sua voz fraquinha e nem do seu olhar quase no céu. Ela assegurou que era certo que não falharia a voz que cochichava ao seu ouvido. Um pressentimento, premonição, coisa assim. O neto, sempre atento, era quem lhe dava banho, arrumava os seus cabelos, cuidava da sua aposentadoria e guardava o dinheiro para o banquete do seu velório. As velas podiam ser de segunda, as flores de qualquer jardim, o caixão sem almofada, mas do banquete ela não abria mão e tinha que ser farto. Carne assada, carne com molho, carne de porco nem pensar, e uma farofinha de manteiga já faziam parte do seu cardápio. Cafezinho não poderia faltar nem por um momento sequer. Chá de erva-cidreira, camomila, capim-da-lapa, sabor para todos os gostos. Ela, que sempre foi atenciosa, prestativa e agradecida, não queria que as suas últimas visitas deixassem de ter o tratamento que ela lhes daria em vida. O dinheiro era sempre pouco, mas rendia pelo tamanho do seu coração.

O neto não media esforço para cuidar da avó. Acordava sempre cedo, e acordada ela quase sempre já estava. Segurava em seus braços, a levava para o seu banho e despia a velha quase como se despe uma criança. Não tinha vergonha, mas sentia para ela que também já não se importava muito. Debaixo do chuveiro, ligava o chuveirinho de plástico e deixava a água morna cair sobre aquele corpo enrugado, frágil, e lembrava dos vinte anos atrás quando ela era responsável pelo temperado cheiro que vinha da cozinha na hora do almoço. O xampu pela cabeça, a esponja pelo corpo, a água com sabão escorrendo entre os seus seios bem murchinhos. Foi dali o leite da sua mãe, do tio, das tias e agora tão longe de qualquer emoção. A água escorrendo corpo abaixo e, sem qualquer receio, se virava todos os dias pra ela “vó, lave a xoxota”, e ela “está limpa, seu moleque safado.” E ele repetiu isto tantas vezes até que ela nunca mais se esqueceu e, algumas vezes, apenas dizia “vira pra lá”, e ele com o chuveirinho que deixava bem limpinha a avó.

E amanhã ela estaria partindo para sempre! Ia fazer falta, e o trabalho que ela dava não era tão grande assim. Mas, como ele queria que ela esperasse pelo menos mais cinco dias! Era o tempo que faltava para levá-la ao banco e renovar a sua aposentadoria por mais seis meses. Precisava de uma viagem de férias, descansar dos quase três anos em que deixaram aquele compromisso com ele. Mas não, ela decidiu partir bem nas vésperas, embora ele considerasse como ingratidão. Saiu então do trabalho e foi direto ao mercado comprar todo o material necessário ao banquete. Vários frangos sem asa, sem pé ou pescoço. Carne maciça. Ensopado de frango, assado de boi, e o cheiro chegando ao olfato da avó. Tomate, cebola, alho, sal à gosto, tempero verde. A cozinheira era a sua tia mais velha, e que havia chegado para assumir a sua palavra. Ele entre a cozinha e o quarto da avó. Olhava nos olhos, na respiração, no movimento do corpo, “parece que desta vez ela teve o aviso certo!” O telefone que não pára de tocar. As mesmas perguntas. O ônibus que chegaria trazendo duas tias, um tio, a sua mãe e mais outros da família que foram um dia para São Paulo e nunca mais retornaram definitivamente. Mas agora a velha avó havia dito “se não me visitarem desta vez, eles vão ter uma surpresa!” E esta tal surpresa apavorava a todos.

Pouco mais de vinte minutos para meia-noite, os parentes da redondeza, os amigos e vizinhos avisados começavam a chegar. O neto apreensivo, saudades da avó, o ônibus atrasado, mais cinco minutos se passaram, a água fervendo para o café, três chaleiras de chá em plena ebulição, o cheiro da carne quase assada, o caldeirão de frango quase no ponto, um olhar na avó, uma caixa de vela em cima da penteadeira.

O relógio grande na parede da sala. Os ponteiros, que pareciam mais ritmados, nunca foram tão observados ao mesmo tempo. O neto já não saía de perto da avó, e, por fim, os seus olhinhos foram ficando ainda mais miúdos. Ficou emocionado quando ela balbuciou uma palavra. Duas, talvez. Aproximou bem os ouvidos à sua boca. O hálito ainda morno da avó. E bem baixinho, como junto às últimas respirações, ele escuta aquela voz fraquinha, tão sem som: “A vela!” Ele sentiu uma lágrima em cada um dos seus olhos e beijou sua face enrugada.

Pegou a vela, colocou entre as suas mãos, e com um aperto no coração a acendeu. Em silêncio ficou acompanhando a avó partir. Dois minutos para meia-noite. A vela acessa se derretendo. Uma gota, duas gotas, três gotas sendo acumuladas e escorrendo vela abaixo até atingir a sua pele tão sensível. Foi ai que o inesperado aconteceu. A avó sentiu dor, abriu os olhos e reagiu jogando a vela sobre a cama: “Me queimou seu moleque!”

Os parentes de São Paulo foram chegando e grande foi a surpresa. “Mas esta velha deu todo este trabalhão pra gente!”, reclamaram em meio ao cansaço. O jantar foi servido quase uma hora da madrugada. Um banquete como tanto recomendou.

No dia seguinte, o banho e o chuveirinho com a água morna: “Vó, lava a xoxota”, “Está limpa, seu moleque safado.”


ANDRADE. I. Luiz. In: Enquanto as folhas são espalhadas pelo vento. Edições UESB. 2002.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A caixa lacrada debaixo da cama

A casa dentro do quarto
Debaixo da cama
Todos os móveis dentro da casa debaixo da cama.
Dentro da caixa na casa debaixo da cama

A caixa guardada
A vida trancada na caixa lacrada
Guardada sem graça sem nada.
A casa dentro do quarto
Debaixo da cama
Todos os móveis
Dentro da casa
Debaixo da cama

A caixa guardada
A vida trancada na caixa lacrada
Guardada sem graça sem nada
A caixa lacrada.

Hoje eu encontrei essa poesia datada em 03/08/2006. Vamos do começo: o meu primeiro livro foi exatamente de poesias. Versus (in)versus. E não vou dizer que são poesias imaturas ou que foi uma publicação precipitada. Afinal, teve o seu tempo exato, foi antes, não foi agora. E foi um prazer ter registrado em livro uma parte que eu andava a escrever desde o final da década de 70 até 1980 e mais alguns poucos anos. Foi um evento muito bom, e senti prazer com tudo aquilo. Não houve fotos. Não sei o motivo de não ter tido tal preocupação, mas tem um interessantíssimo clip com nove dos poemas, produzido por J. Melquizedeque e hoje no acervo da UESB.

Depois, entre um tempo e outro, produzi algumas outras poesias que estão, pelo menos por enquanto, guardadas em um arquivo de nome Palavras (in)visíveis. São, até aqui, 72 poesias escritas num bom exercício de brincar com as palavras. De vez em quando elas me atraem a uma nova leitura, e já mudo uma coisa e outra, substituo uma palavras por uma outra que penso ser mais confortável, excluo outras e até mesmo anulo versos completos. Escrever não é mesmo simplesmente escrever, mas é, imprescindivelmente, rever, reescrever, lapidar. É ter consciência de que muito do que foi escrito pode ter como “resultado final” a metade do que era. Ou menos até. É uma arte que exige uma bacia transbordando de paciência, percepção e critérios afins.

Ainda não acabou. Depois de tudo, quando o texto é novamente apresentado a nós mesmos, pode ser que muito do que ficou não era, não devia. Mas, é assim mesmo, ser mais criterioso na próxima escrita. Tentar. Buscar. Muitas vezes isso garante um texto agora impecável, e outras vezes é melhor dar um tempo, abrir a janela, olhar a vida lá fora, ler uma paisagem tranquila. Sabemos: tudo precisa de um tempo. Sabemos muito, mas nem sempre conseguimos absorver tudo, compreender, descansar. Fazer essa reflexão é, de certa maneira, um ato de repeti-la para mim mesmo.

Agora, para fechar um círculo, retorno à poesia que hoje reencontrei em minhas buscar permanentes de possíveis coisas guardadas. Não tem título. A poesia. Mas nem tudo precisa de um título. Precisa? Pensarei depois a respeito, pois tenho mesmo dificuldades para tal encontro que dá contentamento quando cai bem. É, sem título, o que procurar? Como procurar? O Lobo Antunes é um mestre impecável também no encontro de grandes títulos (Que farei quando tudo arde?, Não entres tão depressa nessa noite escura, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? São apenas três dos seus diversos títulos atraentes, ricos de significados. Sou mesmo um apaixonado pela suas criações).

(A poesia. Nunca mais escrevi poesias, pois o conto tem me puxa com tanta atração. Mas conforta-me a possibilidade de a poesia poder estar ali dentro. Do conto. O romance. Há sim um encontro entre os gêneros).

Não me recordo do momento que peguei a caixa, a cama, os móveis, a vida e coloquei tudo isso num espaço debaixo da cama, para construir um poema. Reli-o como um desconhecido, mas, imagens soltas chegavam enquanto isso. Às vezes, fica muita coisa guardada debaixo da cama, não apenas sapatos batidos, confortáveis ou cheios de calos, ou poeira, chocolates escondidos para a noite, urinóis noturnos de quem os usa. Outras coisas ficam guardadas por ali, ainda lacradas, quase amassadas, apertadas dentro de caixa interiores lá dentro dos sentimentos e que, tantas vezes, clamam para sair, pular pelo quarto, pela sala, a casa inteira, as janelas abertas. Coisas guardadas, desnecessariamente: papéis, roupas, sapatos apertados, embrulhos dos chocolates comidos no meio da noite, lembranças corrosivas. E, sem dúvida, as coisas sabiamente guardadas, afinal, nem tudo tem que se fazer palavras ou coisas que já não são, não devem, em vão. Essas, não devem estar mais lacradas na caixa, mas lançadas num canto que nem existe.

Sabemos muito mais do que somos ou fazemos.

sábado, 10 de outubro de 2009

Um pouco de cada coisa: Freud, Antunes, Torres e devaneios

Nas últimas horas acabei de ler, grifar e rabiscar mais criteriosamente Escritores criativos e devaneios, de Freud, artigo que tem o seu interesse principal no exame das fantasias. Uma leitura agora comprometida com a minha pesquisa que envolve diretamente as narrativas, as histórias e os personagens criteriosamente construídos pelos escritores António Lobo Antunes e António Torres. Enquanto lia o artigo, por vezes as lembranças corriam, buscavam e traziam alguns instantes e perfis característicos de seus narradores, personagens, enquanto tudo e todos se entrelaçavam.

(Não digo aqui de pegar a teoria e empurrá-la na ficção ou pegar página por página de um romance com a pretensão de encaixá-las dentro de alguma teoria de maneira quase sufocada. Não digo também em desconsiderar a voz do narrador e se apegar no escritor desde a sua experiência de quando criança e fazer uma leitura, uma interpretação, uma análise, um texto, tudo no mundo da criança, seu imaginário, causas e efeitos. Por que digo isso? Pelos diversos pontos de vista defendidos com a segurança peculiar de estudiosos e linhas específicas. Portanto, quero antes ler, degustar, deleitar-me com tantos romances que têm o poder de pegar o leitor e levá-lo a percorrer caminhos enquanto tudo parece ser mais real do que a própria realidade do que foi. E já não há mais ficção, pois os personagem renascem e se fazem vivos em cada página. Leio assim os romances de A. L. Antunes. Divagações minhas? Mas divagações são lugares, também, de descobertas, percepções, insight, conhecimento, aprendizagem. Já vou fechar o estado de parênteses).

Preparei um Fichamento e reli partes: Freud levanta o seguinte questionamento no texto em referência: Será que deveríamos procurar já na infância os primeiros traços de atividade imaginativa? Em belas imagens e reflexões ele faz compreender não ainda com respostas diretas, mas como novos questionamentos que, na verdade, são respostas concretas: ao brincar, a criança não se comporta como um escritor criativo, quando ela cria um mundo próprio ao reajustar os elementos de maneira que lhe agrade? A criança distingue brincadeira e realidade, e gosta de associar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’ infantil do ‘fantasiar’.

Assim como a criança que brinca, o escritor criativo cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério. Ele investe um alto volume de emoção nesse mundo, mas o mantém em uma clara separação da realidade. A linguagem preservou essa relação entre o brincar infantil e a criação poética. A técnica da arte do escritor tem influências da irrealidade do seu mundo imaginativo, pois, muita coisa que, se fosse real, não causaria prazer, pode proporcioná-lo como jogo de fantasia, e muitos excitamentos que em si são realmente penosos, podem tornar-se uma fonte de prazer para os ouvintes e espectadores na representação da obra de um escritor.

E hoje adquiri a Revista Visão (www.visão.pt Nº 866 de 8 a 14 de Outubro 2009), que traz uma entrevista com o escritor António Lobo Antunes, concedida a Sara Belo Luís e com expressivas fotografias feitas por Gonçalo Rosa da Silva. Texto de capa: No mundo de Lobo Antunes – Fomos a casa do escritor. E falamos do novo livro, do amor, do poder, do papel da arte e dos seus autores favoritos. Título da entrevista: ´Os meus livros não vão morrer´.

Hoje fico por aqui, quero calmamente ler a entrevista.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

"Enquanto as folhas são espalhadas pelo vento" - Uma parte do Prefácio

Enquanto ouço algumas das diversas histórias que surgem no dia-a-dia, inevitavelmente crio imagens, frases, parágrafos e, descompromissadamente, os visualizo como possibilidades de contos. Algumas vezes, tento transcrevê-los e percebo que não passam de empolgações de um instante ou que nem tudo é contagiante quando vai para o papel. Parece haver o vazio da descoberta, ao menos para o ato de escrever, quando os signficantes terminam não satisfazendo a angústia e o prazer da procura. No entanto, além de uma possível elaboração dessas histórias, mesmo correndo o risco de, algumas vezes, se tornar um texto inerte ou insosso, é possível criar e recriar a partir dessas diversas situações. A Historia pode se tornar uma outra, independente, adquirindo a sua própria voz em meio a possíveis semelhanças entre o que foi e o que é.

Foi assim que comecei a elaborar e também a desistir de alguns contos. Alguns deles se perderam pelos primeiros parágrafos; outros insistiram em suas existências mesmo que para permanecerem engavetados. Porem, mesmo desconfiado, fui acreditando que alguns deles, em meio a esforços e exercícios, conseguiram agradar a alguns leitores abertos a leituras, digamos, experimentais. Revisões diversas e a angústia de nunca vê-los impassíveis de mudanças. Até que um dia, como um grito de curiosidade e de desejo forte de arriscar, tomado por uma coragem de realizá-los como literatura, eles chegaram até aqui, se expondo, talvez pretensiosamente, como resultado de textos concluídos – até o instante de cada leitor prossegui-los com os seus próprios questionamentos e conclusões.

O primeiro desta série de contos é exatamente o que da título ao livro. Era inverno de 2000 e, depois de um longo tempo olhando a imagem exposta lá fora, as árvores secas, as folhas amareladas e avermelhadas a rolar pelas ruas ainda com restos de neve, paisagem sombria e a me remeter a uma outra imagem longe, distante, porém muito mais próxima do que tudo naquele instante, frases foram formadas na tentativa de transcrever aquela conexão de instantes. Surgiu, então, Enquanto as folhas são espalhadas pelo vento, texto originalmente mais extenso do que o definitivo. Muitas vezes, as palavras vêm como correntezas fortes, emoções sem limites, informações sem medida, levando o texto a se exceder nos seu objetivo inicial, havendo assim uma certa necessidade de ajustes em favor de uma sintonia maior com a literatura e claro, com o leitor. Escrever nem sempre é se deixar levar por todas as emoções que nos invadem, mas tentar excluir o que nos parece excesso sem, no entanto, ferir o excesso que nos impulsiona a escrever. E, nesta ansiedade natural em busca de um certo equilíbrio, muitas folhas são espalhadas pelo vendo, ora encontrando um aconchego, ora vivendo em seus desassossegos.

[…].

In: Enquanto as folhas são espalhadas pelo vento. Prêmio Zélia Saldanha – Contos. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB. (Edital 039/2002).

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Escrevi, apaguei, escrevi... (e) Abri novamente a velha agenda VII

Porto. Estação Campanhã. Pegarei o próximo comboio, que será às 20:47. O anterior estava esgotado pelo feriado de 05 de Outubro, Proclamação da República. A estação cheia, mais de uma hora desde quando aqui cheguei até o horário da partida, mas quero uma noite calma, depois de pensamentos e possibilidades diversas que podem ou não.


A música. As belas cidades do Porto e de Gaia e a ponte sobre o rio Douro entre ambas. Imagem indescritível. E eu aqui, agora, na estação, um café com leite bem quente, a rasa chuva lá fora e a necessidade de escrever. Queria dizer algumas coisas que não sei exatamente, mas que imagino. Entretanto, nem tudo o que pode ser é ou será. Nem tudo é verdades ou mentira de cada dia. “Pai nosso que estás nos Céus…!”


Já faz um bom tempo que algo tem me encucado. O medo da mentira. O medo da verdade. Quem em algum momento da vida não teve um medo da verdade e um medo da mentira? Se ainda não, é certo: terá! A mentira é corrosiva e dá arrepios de repulsa, se comprometer seja lá o que for e criar lacunas. Eu tenho a minha própria leitura de lacuna. Um universo de significado, significante, significações, Saussure. (Ah, Saussure! Velhos tempos lá na UESB! Um tempo muito bom!). Retornando. Um universo de significações pessoais. Depende do campo de cada um. Se desejar parar um pouco a leitura, interrompa e pense sobre os seus possíveis conceitos de lacuna metafótica, se for o caso, se houver. Ponto final. Eu parto para o ponto seguinte.

***

Eu disse que não mais falaria sobre a velha agenda. Direi. É nela que aproveito páginas em branco enquanto chega o horário… Algumas anotações feitas na “Jornada Comemorativa António Lobo Antunes: a arte do romance” (30 anos do romance Memória de Elefante). Um evento que rendeu grandes encontros, discussões impecáveis, um ampliar de conhecimento e de descobertas. E, sem contar que estava presente o próprio escritor. Ele, o Eduardo Lourenço, Maria Alzira Seixo, Ana Paula Arnaut e outros grandes nomes de olhares afins. Registrado. (Desconfio que já comentei a respeito, mas não vejo problema algum em intensificar tais acontecimentos). E eu ali, degustando.


Em outra página, Bergson. Bergson e as suas duas espécies de memória: Memória-hábito e Memória lembrança. Vivo repetindo isso para mim mesmo. A primeira, a memória dos mecanismos motores, dos esquemas comportamentais habituais. A segunda, formada por rememorações isoladas. Evocativas. Para Bergson, a verdadeira memória, por ser inconsciente, por ser individualizada. Lugar do passado. E o inconsciente se ocupa de trazer aquilo que está latente, para que seja atualizado. Teoria de que a memória é a completa conservação do passado recordado.


(Agora eu já estou dentro do comboio. A música lá dentro. Run. Light up, light up / As if you have a choice / Even if you cannot hear my voice / I'll be right beside you dear-)


Escrevi algo e apaguei. Escrevi e apaguei novamente. Todo mundo pode agir assim em algum momento. Escreve e apaga… Às vezes é melhor, às vezes é pior, às vezes tanto faz. E, com tal imagem, eu indico um livro que ganhei de presente de uma amiga filóloga, pensadora das fortes: Inscrever e Apagar, de Roger Chartier, historiador do livro e da leitura: Guardar ou guardar documentos? Rasgar ou nãos os rascunhos, os rabiscos, as anotações? Melhor se livrar deles ou serão realmente úteis? O dilema entre o guardar e o acumular. Ele inicia a sua Introdução afirmando que o medo do esquecimento obcecou as sociedades europeias da primeira fase da modernidade.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A menina que era louca

Todos diziam que ela seria uma louca. Todos. A mãe, o irmão e a irmã; de vez em quando o pai; e a avó, a paterna, era pior do que os vizinhos, e insistia em dizer que a menina, coitada, era uma desajustada, “eu desconfio que tenho uma neta louca. Se ainda não é, será!” Enfática. Profética. A avó, sempre empurrando a menina para os braços da loucura, sempre foi assim, desde que a caçula nasceu. No começo, os seus comentários ainda pareciam brincadeira, até que foi contagiando a todos e os dias mais desconfiados foram gradativamente demonstrando que ela seria uma louca, de verdade. A avó sempre a perturbar a cabeça da mãe da menina que, de vez em quando, disfarçava e dizia que tudo aquilo era mesmo brincadeira de criança, e que a sua filha, ao crescer, seria uma pessoa normal. “Coisa de criança”, dizia com alguma convicção o pai, quando sentia a dor causada pelos comentários jogados sobre a sua filhinha caçula.

E a menina ouvia aqueles comentários já tão comuns, comentados como se ela não estivesse por perto, e não estivesse ouvindo nada, e nada fosse, e um futuro doido a esperasse. Ela ouvia tudo aquilo, uma dor solitária, e se encolhia dentro, bem dentro dela mesma, e, em cada dia, em todos os dias, em todas as noites ou ainda ao amanhecer, ela sentia uma necessidade, quase sagrada, de ter um tempo reservado apenas para pensar na nova cena que a louca teria que encenar. De tanto ouvir que era louca, ela foi se sentindo cúmplice, comprometida, e se envolvendo em meio a um prazer misturado com perversidade. A porta trancada, a menina lá dentro do quarto, lá dentro do banheiro, lá dentro dela mesma, a louca pensando. A louca pensando tanto, cautelosamente a louca pensando, a louca, a louca, louca, louca... Ecos enlouquecedores a lhe ensurdecerem quase de vez. E a menina ora se encolhia, ora se divertia, secretamente, com tudo aquilo que diziam a seu respeito.

Os dias se passavam e a menina silenciava-se, silenciada, conversava menos, e se recusava a brincar com o irmão, e a brincar com a irmã, e a ouvir as reclamações da mãe e da avó mandando que fosse tomar banho, e que parasse de fazer careta no espelho, e que não comesse igual a bicho, e que estava passando da hora de dormir, e tantas outras reclamações que, com o tempo, foram perdendo o sentido. A menina agora diante do espelho, sem pronunciar uma palavra sequer, a cara toda borrada de tanta pintura, e ela esfregando a cara no espelho e gritando desesperadamente para aquela outra, um ódio daquela outra, que era ela mesma, dentro do espelho.

“Pára de gritar”, gritava a mãe, desesperada. E a avó “essa menina já passou do tempo de um tratamento”. A menina, com a cara toda borrada e com o espelho em suas mãos, virou-se para a avó, olhou bem dentro daqueles olhos pioneiros em dizer que ela era louca, olhou bem fundo, aproximou-se, lentamente, e a avó se recuava, “tira ela daqui”, gritou arrogantemente para a nora que chorava lá no quarto, a menina aproximou-se, e, bem próxima, sorriu cinicamente para a avó, pegou o espelho, colocou bem de frente para aquele rosto apavorado, e fez a avó ver seu próprio rosto apavorado naquele espelho todo manchado de maquiagem. Depois, com naturalidade, a menina sentou no chão da sala e brincou com as suas bonecas, todas nuas, as bonecas. Ela sorria carinhosamente para elas, apenas para elas, as bonecas.

A avó sentada na cama ao lado da nora, as duas olhando o chão e enxergando a menina em todos os lados. Os irmãos da menina também sentados, em silêncio, em suas camas. Os adultos apreensivos com a loucura da menina, a loucura que parecia se confirmar de vez para eles. Os irmãos no quarto, diferentemente dos adultos, não estavam apreensivos, mas tristes. Nunca estiveram tão tristes como naquele dia. A irmãzinha mais nova era mesmo louca, e eles sentiam muita vontade de brincar com ela, como tão raras vezes conseguiram, e há tempos atrás. O pai que não chegava. Onde estava o pai naquele fim de tarde de domingo? Aquele domingo tão triste e a criança na sala, isolada. A louca. A doida. A maluca. A menina, quietinha em seu canto, atenta a qualquer ruído pela casa, doida pra se libertar da louca daquela noite. Ninguém sabia disso. Apenas ela. Apenas ela sabia o quanto queria agora se libertar daquela louca toda confusa dentro dela.

A menina fazia de conta que estava brincando, e olhava o tempo todo para a porta, doida pra o pai chegar logo. Com ele, não se sentia tão isolada. Foi aquele o dia que ela não mais suportou o peso da loucura que jogaram dentro da sua mente. Estava cansada, muito cansada, queria agora ser igual ao irmão, igual à irmã, igual às outras netas da sua avó. A avó. Ela não sabia o motivo de a avó nunca ter lhe dado conversa, e nunca tê-la abraçado como abraçava a todos os outros.

A bolsa da avó sobre a mesa. As suas maquiagens que ninguém deveria tocá-las, e a menina não teve dúvida: pegou a bolsa, abriu com muito prazer, retirou o estojo de batom vermelho, vermelho mais escuro, vermelho mais claro, cores sempre ativas, e olhou para o chão e para as paredes da sala. Os batons sendo transformados em palavras soltas e desenhos de rostos arrogantes e tristes no chão e nas paredes.

A sala agora colorida, a menina sozinha e sem conseguir esconder a sua tristeza. E, nesse momento, sem serem percebidos, o seu irmão e a sua irmã quase chorando a observavam, enquanto ela chorava com os braços abertos sobre um dos rostos estranhos pintados na parede. Comovidos, eles se aproximaram dela e a abraçaram como há tanto tempo sentiam vontade. Neste instante, o pai também chegou. As três crianças choravam, abraçadas; o pai parado na porta, emocionado. A sala colorida, a menina que era louca.


In: O Silêncio e a Bagagem, 2008.

sábado, 3 de outubro de 2009

Um dia para um Bergmann e coisas da velha agenda VI

Folheei a velha agenda. Acredito que hoje será a última vez que farei referências mais diretas à esse amontoado de palavras espalhadas aleatoriamente pelos dias quem nem sempre são os seus. Já comentei quase tudo da agenda, e outras coisas não precisam ser mencionadas, ou preferem as páginas guardadas como uma espécie de “ainda bem que não falei nada!”. Sabedoria ficar calado de vez em quando! O estado de libertação do ser oprimido pelo excesso de palavras, excesso de frases, excesso de informações que seriam mais adequadas nas linhas dentro de alguma agenda fechada na minha ou na sua gaveta. Na estante, na escrivaninha, dentro de alguma caixa. Cada um guarda a sua, óbvio. E falar o óbvio é uma faca de dois gumes.


Tantos dias se passaram desde que escrevi, aqui, pela última vez. Senti muita falta, mas eu não consegui ser mais forte do que os dias que se passaram; não consegui ser mais forte dos que os dias adiados; não consegui ser mais forte do que as demais coisas a serem feitas. Não temos esses dias assim? Sim, eu sei, eu sei que muitos até podem ter seus dias assim, mas que vão lá e fazem sim, arranjam um tempinho ao estender as horas mais um pouquinho e fazem a outra coisa, sim, eu sei. Mas nem sempre consigo. Paciência. Ouço demais o Lenine cantando tão bela música: “Eu finjo ter paciência”. Mas escrevi. Escrevi dois ou três prováveis contos durante o intervalo daqui, e escrevi um artigo para o XXII Congresso Internacional de Professores de Literatura Portuguesa, realizado em Salvador. Um artigo sobre as Cartas da Guerra, escritas por A. L. Antunes para a sua então esposa, durante os anos em que esteve no Leste de Angola (1971-1973), na Guerra Colonial. Impecáveis! As cartas, os dados, as emoções, a saudade, os desejos, paisagens da guerra: a guerra exterior e uma guerra interior. Uma fonte de pesquisa.


Hoje já estou em Portugal. Ontem estive na Universidade de Coimbra e foi imenso prazer ouvir a professora Dra. Ana Paula Arnaut. A sua brilhante apresentação sobre a obra de A. L. Antunes. Profunda conhecedora da sua escrita, o dom da palavra, análises intensas. A sua apresentação fez mais do que valer a minha viagem de Lisboa a Coimbra, além das paisagens agradáveis pelas estradas de Portugal. Foi um degustar do saber. Um passeio pelo interior das personagens e com uma intimidade em cada personalidade criada pelo sábio e mestre Antunes. Difícil um leitor ouvir tamanha apresentação e não sair com vontade imensa de ler, por exemplo, O Esplendor de Portugal e vivenciar a história de Isilda - mãe de três filhos e expulsa da própria fazenda em África - ou ler o primeiro livro de A.L.A que aparecer na estante mais próxima e saborear a diversidade de comportamento das suas personagens vivas, ainda que mortas, nas páginas dos seus romances. Agora em Outubro, o lançamento do seu novo romance: Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar. Eu sedento. E aguardando com grande prazer, também, o novo livro de Ana Paula Arnaut, agora em outubro, sobre a obra do escritor.


Depois vim para o Porto. Estou aqui, e agora sentindo o agradável cheiro de rojões dançando na panela rodeado de azeite e vinho branco. A arte na literatura e a arte na cozinha. A arte, fundamental em cada lugar do fazer, quando o artista domina o seu espaço. Baila.


Da velha agenda, sempre bem nova em muitas das suas anotações, as Linhas de Pesquisas do meu grande orientador do mestrado, o Dr. L. Bouças Coutinho: 1. Imaginários culturais e literatura; 2. Construção crítica da modernidade; 3. Diálogos interculturais e intersemióticos. Eu, feliz quanto aos meus sábios orientadores. Agora, no Doutoramento, o Dr. António Moniz e o meu compromisso em respeitá-lo com uma tese que corresponda ao seu nível de conhecimento e empenho. Meu Deus, socorra-me!


A agenda. Mais livros anotados, bibliografia ampliada e outras anotações como: Tanto Foucault, Derrida, Freud quanto Nietzsche fazem uma releitura da sociedade ocidental, propondo uma desconstrução dos seus valores… Para Lacan, é impossível captar o real, descrever através de palavras. (hsmPaEsyNdlhSkhAMjgEjaNTOSsdh) Dito e redito: A nossa relação com o mundo é uma relação simbólica. (grifado). Espaço em branco. TODA ESCRITA FICCIONALIZA O SEU LEITOR. Lemos o mundo a partir dos saberes que são construídos culturalmente (sociedade, igreja, família…). Esse intercâmbio de saberes (Saber é uma forma de domesticar a realidade) está mediado pela linguagem. Entre o sujeito humano e o real se interpõe a linguagem que não só metaforiza o real, mas também o falseia. Mas a linguagem também organiza o real, de maneira que pensamos como “real” aquilo que o horizonte da linguagem articula como tal. Em outra página, talvez até o que eu já citei aqui: “A cultura não se herda, conquista-se”. (André Malraux, 1901-1976). É, eu sei, outros já disseram a mesma coisa em outras palavras. As coisas são ditas de outra maneira e se fazem novas, pois chegam de maneira diferente, chegam com algo novo, chegam em contextos e momentos diferentes. Frase ímpar é “E eis que tudo se fez novo!”


Pensei que não falaria mais da agenda. Pensei. A gente sempre corre o risco de pensar o que não é, ou nunca foi, ou ainda será; pensar que algo deixou de ser e nem deixou. A gente corre o risco de pensar de outra maneira que não. Ou que sim. Correr o risco não significa necessariamente estar diante do risco.


Hoje, para mim, está um bom dia para um Bergmann. E qual é o seu Bergmann de hoje?