segunda-feira, 8 de março de 2021

"Fragmentos do diário de Martha B."

Capa: Gustav Klimt, Apple Tree

Publicação: Subterrânea Colectivo


Prefácio: Roberto Nicosia*

In questo squilibrio del dubbio, come per gli orologi sciolti di Dalì, la scrittura di Martha B. diventa liquida e pervasiva, la divagazione apre le porte ad una dialettica i cui termini di confronto sono basati sul principio di negazione della memoria.”

Projetada pela escolha que está para além de uma personalidade monolítica – o gênero diarístico é a melhor sedução da alma por um desejo em constante movimento –, o drama conflituoso de quem quer entender os sinais opacos dos eventos interiores se traduz, por Martha B., em pura capacidade criativa, à qual não é necessário compreender, mas sobretudo conectar-se: “Portanto aqui me desprendo da ordem das palavras e do pensamento, ordem no sentido de sequência”. A sua viagem através da memória é uma mala desfeita sempre no ponto de ser fechada, entretanto, pronta para uma partida futura. Se não único, todavia claro, resulta o argumento principal de quem inicia e se prepara para a leitura deste memorial: o senso de fuga e da labiríntica procura é sempre presente.

No desequilíbrio da dúvida, como pelos relógios dissolvidos de Dalí, a escritura de Martha B. se torna líquida e pervasiva, a divagacão abre as portas a uma dialética cujos términos de confronto são baseados sobre princípios de negacão da memória e da reflexão. Simon, Gael, vó Antonieta, a mãe, o pai, o irmão, Alzira, Catarine, e outros, bem como os objetos recorrentes (a janela do próprio quarto, a árvore etc…), diante da lente de uma análise prolongada por dias e meses, passam a ser figuras e emblemas de uma complexa galáxia narrativa contra cuja voz da protagonista se modula e se fragmenta em regatos e meandros.

Como um vidro despedaçado, a vida, ou melhor, as vidas de Martha não conseguem preencher o abismo dos seus próprios fragmentos. As próprias cartas do diário são uma sucessão de registros clínicos que imprimem a presença inquietante de um estado de melancolia, mas sobretudo o desejo de um mapeamento artesanal do próprio ser – consciente/inconsciente – em continua expansão e, por isto, impossível de se conter, torrencial.

Exatamente na procura das fronteiras, o centro resulta em um vazio (simbolizado na infinitude do deserto ou do silêncio), dentro do qual Martha B. escava os contornos dos fatos e das emoçōes, operando como um escultor cuja tarefa é extrair da matéria o perfil do representado: em tal atividade, nada pode ser desconsiderado, nem mesmo o não ser, que necessita de uma definição para exorcisar o risco do vazio, a negação própria de um diário.

É nesta infatigável tentativa de compreender a si mesma que Martha B. chega a se opor ao otimismo da palavra (repetida, alternada, rima imperfeita, reagrupada em lexemas), o que desempenha um papel fundamental na sintaxe dos pensamentos. Uma sintaxe repensada que, à forma dialética tradicional de tese-antítese-síntese (circular e fechada), opõe-se a um binômio aberto: uma vez introduzido o tema do dia, Martha se abandona a testar as lógicas convencionais sem jamais se interessar com a conclusão. O resultado é um efeito de não-acabado, de absoluta casualidade, de reverberação que lança o leitor em direção a ulteriores reflexões e espaços narrativos.

É exatamente aqui, para mim, que está a essência do livro de I. Luiz Andrade: as faces, os silêncios, os desertos, as angústias, as inquietações, ainda que mil vezes abordadas pela lúcida loucura de Martha, e que não podem nunca serem definidas em casos, porque o caso limita, enquanto Martha B. continua a viver na pulsão da sua procura, e a procura de todos nós que estabelecemos um diálogo com Martha. O sentido daqueles espaços deixados à nossa divagação, entre dias e dias, entre parágrafo e parágrafo, entre palavra e palavra, estendem um corredor que necessita da nossa experiência para completar-se e fechar-se em circuito a duplo fluxo, no qual o dar e ter são diretamente proporcionais à nossa necessidade de ver a profundidade deste vasto espelho emocional e psíquico.

Fragmentos do diário de Martha B. é um livro imprescindível para quem procura na escritura uma chave interpretativa do ser e a sua evolução. Não tem nada de superficial neste movimento espiral que envolve a palavra, a frase, a respiração dos parágrafos, o ritmo dos sons, as discrasias, a presença inevitável do corpo e dos sentidos, os sonhos, as lembranças, e os símbolos de uma protagonista que evoca no nome a tradição bíblica da vida ativa. O diário de Martha B. é, portanto, um pretexto para qualquer um de nós que queira penetrar ativamente nos esconderijos de uma alma feminina e no universo psíquico em geral, onde, como no mito platônico da caverna, nutre-se de sombras refletidas para iniciar a própria busca da verdade. Buona lettura.

*Tulane University - New Orleans - EUA

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Disponível nas versões e-book e física. www.amazon.com.br - www.amazon.com - www.amazon.es e demais lojas Amazon.

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segunda-feira, 1 de março de 2021

"Quase jardins" - Romance


Capa: Nada Andrade

Revisão: Eneida Moreida de Brito

Edição: Subterrânea Colectivo

Apresentação: Cláudia Souza*

Quase jardins é o romance do premiado escritor I. Luiz Andrade. Redigido entre os muitos jardins de Lisboa, de Esmoriz e da cidade de Porto, o texto conduz o leitor aos labirintos da reflexão. É uma história sobre o silêncio e a solidão. Uma solidão complexa e densa, uma solidão vivida em família.

O romance está construído em torno de quatro personagens principais que, no desenrolar do texto, se transformam em vários outros e por vezes se misturam, como é o caso de José do Lago e de Júlio. As palavras que deslizaram das mãos atentas do escritor buscam e encontram no leitor representações que o habitam: a mãe, o pai, o filho, a filha, a existência, a loucura, a linguagem e as águas… Águas que unem e separam vidas, intimidades, vontades, verdades. Águas que aparecem depois que o sol se põe, quando tudo fica paradoxalmente mais claro, mais nítido. O dia, no romance, traz uma outra lucidez, perigosa, arriscada como toda lucidez, que pode conduzir o ser à loucura e aos seus arredores.

Trata-se de romance polifónico, no sentido bakhtiniano do termo, todas as personagens têm o mesmo brilho, a mesma força. A escrita do texto foi construída de tal forma, que ao caminhar pelos capítulos muitos horizontes se desdobram. Não há um centro único e intocável, há o deslize, há o encanto, há um campo de possibilidades. Se o autor está morto, como afirmaria Barthes, Foucault e tantos outros pensadores, não podemos afirmar. Podemos apenas dizer com alguma certeza que o autor principal do texto é o próprio texto, dialógico e polifónico, como cada um de nós, e por isso o romance é tão envolvente e tão sedutor. O responsável pelo gesto que gerou a escrita foi acima de tudo artista, soube usar com maestria cada palavra, soube articular a linguagem de tal forma que a entrega do leitor é inevitável.

Quase Jardins é um título muito oportuno, pois são muitos os jardins do romance. Existe um jardim infantil, fruto de fortes e distantes lembranças de um adulto. Esse mesmo jardim é o palco de alucinações infantis, de desejos, de sonhos. O outro jardim fica na outra margem do rio, num lugar imaginado ou real? O autor deixa essa questão para o leitor. Um jardim também de alucinações, de medo, de apreensão e de muitos encontros. A grama verde, as árvores, os muitos remédios, o banco…o banco do jardim, um convite à partilha. O vasto jardim do psiquismo humano é amplamente trabalhado no texto.

A escrita, a linguagem, esse grande Outro do romance foi construído de tal forma que o silêncio também é parte fundamental do texto. E através do silêncio, que compõe o texto, o leitor vai se tornando artífice da história, ele também constrói o romance. As palavras que habitam o mundo há tanto tempo, vão à medida que as páginas são viradas, fazendo eco, conduzindo o leitor por belos e complexos jardins. O silêncio ruidoso do texto penetra no psiquismo do leitor trazendo a leitura por caminhos quotidianos e concretos: Júlio, Helena, José e Mariza aparecem na real mesa de jantar, na cabeceira, nas ruas, revelando uma mistura entre o real e a ficção.

O estilo do romance é impecável, a articulação entre todas as palavras, todos os factos, todos os personagens. Uma escrita sobretudo fluida – que, como a água, passeia entre muitos lugares, entre muitos significantes, entre muitos jardins. E as personagens quase dizem tudo, quase são todos protagonistas, quase são todos permeados pela loucura e é neste quase que está toda a beleza da narrativa. O quase dito, o semi-dito, a verdade que nunca é toda, nunca é inteira, somente quase. Mariza é quase uma mulher perfeita, Júlio é quase feliz, José é quase um ótimo pai e Helena é quase autossuficiente. Esse quase traz uma sabedoria e encanta o leitor que é quase escritor, quase intérprete, quase inteiro, quase verdadeiro, quase louco.

Tornar o leitor participante ativo do romance quer dizer que só resta uma certeza: o escritor nunca foi quase. Ele foi inteiro na sua transpiração e na sua inspiração para escrever, pois só diante de uma inteireza maciça havia a possibilidade de construir todos os quase que habitam o romance.

Além das personagens já citadas, encontramos também a figura de uma avó, uma personalidade que tem um importante papel no núcleo familiar. Uma avó construída através de uma fértil imaginação, ela realmente existiu? Quando a personagem da avó ganha força uma pergunta se faz presente: o que é de fato real, e o que é construção de uma mente fantasiosa? Uma mente que é capaz de realizar muitas viagens, quase verdadeiras, quase em segundos, num momento em que a chave roda na fechadura, num momento de distração, num momento inesperado.

Um outro aspecto muito interessante no romance é o olhar. A narrativa do romance é estruturada sobretudo a partir do olhar. Como no parágrafo inicial do primeiro capítulo, no qual um dos personagens, sentado num degrau, contempla “a paisagem nítida das coisas”, “tudo tão indecifrável”. O olhar, a água, a linguagem, forças incontroláveis que permeiam o romance. A água com sua força depurativa e misteriosa. O olhar dos personagens que busca decifrar o indecifrável. E a linguagem essa grande rede sobre a qual estamos estendidos todos e todos os personagens que Quase Jardins invoca.

Depois de iniciada a leitura de Quase Jardins o leitor começa a contar o seu próprio romance. O texto é altamente sedutor e foi elaborado com tal perfeição que o leitor não só se envolve com os personagens, como os personagens se envolvem com o leitor. Ou seja, é um romance que altera a sua visão do mundo e de si. O poder da escrita, da utilização da linguagem é elevada ao máximo grau, de tal forma que se torna impossível não estabelecer um pacto com a narrativa e permitir que ela, na sua fluidez aquática, passeie pelas constelações mais belas e profundas que habitam a psique de cada um de nós.

Júlio, Helena, Mariza, José esperam o toque do leitor, o manusear das páginas. Assim como o louco, que é outra personagem muito rico e bem construído, que entre seus muitos frascos de remédios exala sua intensa lucidez filosófica. Um louco que habita o cerne do conhecer, o centro do inapreensível, o centro do ser humano, tão cheio de nós, feitos durante uma pequena existência.

Quase Jardins é uma obra-prima da literatura, uma obra grandiosa de um autor que traz na sua escrita um dizer único, um estilo ímpar e suscita no seu interlocutor muitas questões. É um romance que suspende o ar, que leva o leitor por recantos do existir, que exalta o grande Outro, a linguagem, lugar-comum, onde todos nós somos mestres e escravos, com a excepção do escritor, que através desta obra riquíssima mostra que em seu tecer com as palavras foi muito mais mestre. As muitas águas do romance precisam de movimento, precisam que o leitor, atento até agora a esse prefácio, inicie a sua viagem, única, reflexiva e instigante.

*Doutora em Literaturas de Língua Portuguesa, Pós-doutora do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo. Possui livros, capítulos de livros e artigos publicados no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

Disponível nas versões e-book e física, em: www.amazon.com.br, www.amazon.com, www.amazon.es e demais lojas Amazon.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

"É o inverno, Leon" - Romance

Capa: Nana Andrade
Revisão: Maria Cristina Mota
Edição: Subterrânea Colectivo

Prefácio: Elis Crokidakis*

Em busca do verão.

Com uma escrita frenética como se fosse um filme de ação, Leon é construído. Um personagem que não vem direto com uma descrição minuciosa de seu universo, ao contrário, ele vem aos poucos, em cada capítulo, sendo inventado. No entanto, há elementos que são presentes em todo o texto, pois em todos os capítulos vemos a angústia de Leon, sua fragmentação, seu devaneio.

Camus, em “O estrangeiro”, coloca-nos diante de um homem que parece não ter sentimentos, para quem tanto faz como tanto fez, ao contrário é Leon, este tem excesso de sentimentos, de sensações, de saberes que o confundem e não o deixam com a mente clara. Nem um nem outro são o ideal. Talvez o caminho do meio nos soasse como algo mais tranquilo, mas como no atual estágio em que se encontra a humanidade isso é cada vez mais difícil. Acordamos e tudo já aconteceu enquanto dormimos, os meios de comunicação que nos aproximam também nos distanciam e a cada momento são maiores os índices de extrema solidão, mesmo que sejamos os mais conectados. Talvez seja isso que I. Luiz Andrade nos queira dizer. E diz por sua forma mais intensa, mais cortante, que por vezes se faz necessário parar de ler para não sucumbir às sensações.

Quem é Leon? Quem é Nara? Quem é Laura? Quem é Lílian? Quem somos todos nós na loucura do viver? Talvez seja essa a grande pergunta do livro. Todavia ela é apressada, não dá trégua ao leitor, que ao ler fica sufocado. A velocidade das palavras em parágrafos curtos e as descrições dos espaços marcados por meios de transporte fazem o leitor sentir que precisa se deslocar, sair da mesmice para não se consumir nas dúvidas, nos desencontros da vida, ao mesmo tempo em que busca o fio de Ariadne no labirinto de Creta. A memória é o grande viés a percorrer a narrativa, ela vai e volta. Leon não entende como isso acontece, mas é assim que se dá. Talvez a memória seja, então, o grande labirinto que, na narrativa, necessita de um condutor para levar o fio.

Mas e o enredo, a história, esta é menos importante que a forma de narrar. Posso ousar dizer que a escrita é também labiríntica e tudo se convergirá a um só enredo? Não creio. Cada leitor fará uma história diferente, na magia da arte tudo pode acontecer. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”, diria Clarice Lispector, mas que vida é essa? Leon está em busca de si mesmo e vê em todos as explicações para si mesmo. É o inverno, sempre inverno, diz a mãe, diz Nara, diz Laura. Todo mundo diz, mas Leon não sabe sobre o seu sentir, ou seja, de que ordem são os seus sentimentos, e também não sabe o que sente. Mas sabe que o inverno está dentro dele em certos momentos de sua existência.

A necessidade de entender a si mesmo e aos seus sentimentos truncados fazem ainda de Leon o próprio homem pós-moderno, solto no mundo, fragmentado e sem saber onde ir, aí ele se volta para o berço. No texto, é clara a presença da família, aquela que ele tem certeza que estará sempre ali para acolhê-lo. A mãe, a que mais o entende, a referência maior, o pai, o amor e o respeito, e os demais como um complemento para a identificação do que seria o seu verão. Ou seja, Leon está aí o tempo todo, nas ruas, nas salas de aula, nos transportes, em qualquer lugar. Ele representa, por fim, essa necessidade que todo ser humano tem de se sentir acolhido, amado para poder ser e não apenas existir.

Villefrance de Rouergue, em setembro de 2019.

*Doutora em Ciência da Literatura, com pós-doutorado em Literatura Brasileira. Professora de Literatura e Cinema da FACHA

Livro disponível nas versões física e e-book: www.amazon.com, www.amazon.com.br, e demais lojas Amazon.

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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Palavras (in)visíveis


Capa: Nana Andrade

Desenhos: João Matos


Prefácio, Nuno Ribeiro*

O livro Palavras (In)visíveis de I. Luiz Andrade encontra-se estruturado em torno de dois temas que compõem esta obra poética: a potência plástica da palavra e a capacidade expressiva do silêncio. Com efeito, ao longo do presente livro existem múltiplas instanciações da potencialidade plástica que subjaz à “palavra”. Encontramos um claro exemplo disso no poema “Tempo das Palavras”, em particular nas duas primeiras estrofes deste poema, onde lemos:

Palavras que mudam com o tempo
o sentido
a intenção.
Palavras que um dia tanto foram
que um dia tanto podem
não mais resistir,
inesperadamente.

Palavras que mudam o rumo
de rumo
e deixam fragmentos
- às vezes, felicidades
imagens, lá dentro
um vento.

De acordo com este poema, a palavra é constituída por uma natureza mutável. Conforme nos diz o autor, “as palavras mudam com o tempo”, numa progressiva alteração de “rumo”, isto é, numa constante divisão de sentidos abertos à criação de uma multiplicidade de mundos diversos que são potenciados por essa variedade de sentidos que a palavra pode assumir. É precisamente isso que lemos nos primeiros três versos do poema “A palavra, decisiva”:

A palavra, diversos mundos
penetrante, mistérios tantos
divisora de sentidos.

A palavra constitui-se, desse forma, como algo portador de um carácter ambivalente, isto é, pela capacidade simultânea de um “sim”, possibilitante de uma abertura a uma pluralidade de possibilidades, e de um “não”, inviabilizador dessa mesma proliferação de possibilidades. É, nesse sentido, que devemos ler os três últimos versos do poema “Juras”, que abre o presente livro:

Pela palavra.
O sim.
O não.

O “sim” e “não” que a palavra possibilita correspondem, por conseguinte, à potência plástica que a palavra tem de nos abrir e também ¬fechar o sentido das múltiplas formas de ser que nos são dadas a ver. Acompanhar a potencialidade plástica da palavra significa, dessa forma, ser capaz de encontrar palavras que expliquem as múltiplas variações do ser, as suas múltiplas possibilidades, conforme lemos na exortação presente nos seguintes versos do poema “Atos 5”:

Quem sabe…
encontrar palavras
que expliquem as variações do ser.

No entanto, paralelamente à temática da plasticidade da palavra, o livro Palavras (In)visíveis é constituído por uma evocação recorrente da dimensão expressiva do silêncio. Com efeito, para além da palavra enquanto abertura de uma pluralidade de possibilidades, este livro de I. Luiz Andrade apresenta-nos múltiplas possibilidades expressivas do silêncio. A importância do silêncio na construção poética de Palavras (In)visíveis é precisamente afirmada na segunda quadra do poema “Faces da Poesia”, onde se lê:

Poesia é o silêncio, o olhar, o encontro
palavras girando na memória.
São os impasses da dor, fantasia
as cores do dia, coisas do amor.

Este trecho estabelece uma explícita relação entre a “Poesia” e o “silêncio”, apontando para um carácter fecundo do silêncio enquanto portador de modalidades poéticas expressivas, tema que é evocado no poema “Silêncio (in)fecundo”, onde lemos:

O silêncio das horas indecifráveis
as horas silenciadas pelas perguntas
sem respostas,
perdidas.
Falta de palavras,
elas que definem o vazio
- que não é infecundo.

Toda esta evocação do carácter fecundo do silêncio, enquanto portador de múltiplas potencialidades expressivas, encontra um dos seus pontos culminantes no poema “Presença silenciada”, onde o autor nos diz:

Alguns silêncios são desconhecidos
e tornam-se íntimos
a presença silenciada
sabe-se lá se outros amores
sabe-se lá se amores antigos
sabe-se lá se por nada.

Alguns silêncios são conhecidos
sabe-se lá se um outro Eu
um que precisava existir
e nunca,

sabe-se lá!

Todos os elementos que temos vindo a apresentar permitem-nos compreender de que forma a poética de Palavras (In)visíveis se encontra alicerçada entre a expressividade do silêncio e a força plástica das palavras, ao mesmo tempo que nos possibilitam afirmar que este livro de I. Luiz Andrade se constitui como um importante contributo para Poesia de língua portuguesa.

*Especialista no espólio de Fernando Pessoa e pós-doutorando do IELT – Instituto de Estudos de Literatura e Tradição –¬ (FSCH, UNL). Autor de edições e estudos sobre a obra de Fernando Pessoa, publicados na Europa, no Brasil e nos Estados Unidos. Coordena, em conjunto com Cláudia Souza, a «Coleção Pessoana» na Apenas Livros. Contacto: nuno.f.ribeiro@sapo.pt

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domingo, 26 de janeiro de 2020

A ponte, apesar do rio


Capa: Nana Andrade.

PREFÁCIO

Sinuoso, inquietante e fugidio, tal qual o fluxo caldaloso do rio, parecem-nos qualificativos apropriados ao livro de narrativas “A ponte, apesar do rio”. São contos, pequenas narrativas, poemas e outros escritos que, numa aparente desconexão, se entretecem com os fios luminosos de genialidade e rebordam em palavras, metáforas e imagens inusitadas a unicidade coesiva. Eis aí um traço marcante do jovem escritor I. Luiz Andrade, uma tendência à experimentação de uma escrita literária sempre carregada da emoção de criar, de inventar com palavras-pontes caminhos que ultrapassem os limites margeados, tão repisados pelo gregarismo das rotas transitáveis e, portanto, indesejáveis. Pois que a ponte, ao tempo em que fragmenta o rio, também o interliga, aproximando suas margens. Interessante notar que a forma como autor constrói as narrativas, guardando uma aparente independência entre cenas narradas, a priori lidas como fragmentos, nos leva a perceber, numa leitura mais atenta, que em todo o tempo estamos diante de uma unicidade estabelecida quer seja pela ideia de complementariedade entre os títulos dos textos, ou pela incidência temática que percorre a maioria deles, ou ainda pela repetição de elementos, categorias ou conceitos-chave que aparecem reiteradas vezes ou mesmo na tentativa de interlocução com o leitor, por parte do narrador, conforme lemos no último parágrafo do primeiro conto “A ponte, apesar do rio I”: “(...) Não vê que a ponte surge imponente e simples sobre o rio e assim constrói uma unicidade?”(...). Esta imagem é retomada no conto seguinte:” (...) A ponte permanecia esbelta e imponente(...)”. É a língua em sua função poética criando pontes que possibilitam o trânsito de sentidos e aproximações polissêmicas. Pois que a língua é ponte que nos liga às diversidades. Que nos transporta para universos diversos, que nos permite decifrar o enigma da esfinge e não sermos devorados. E é esta destreza com a língua portuguesa, especialidade de I. Luiz Andrade, ele que é Doutor em Literatura de Língua Portuguesa e professor, e cronista e poeta e contista, é esta familiaridade com a Língua-ponte que o inspira escrever que “(...) Não preciso repetir que foi a ponte que me trouxe até aqui novamente. Não apenas a ponte sobre o rio, interligando as cidades, mas a ponte entre os rios que somos nós. Há outras imagens sobre os rios... Nós somos rios. Nós somos rios e sobre pontes percorrermos de um lado para outro de nós mesmos. Que formidável sintonia com o pensamento Nietzscheneano I. Luiz Andrade expressa em sua obra, já que este pensador alemão compara o homem a uma ponte, que não é finitude, mas transição e queda e nisto reside a sua grandeza. O livro “A ponte, apesar do rio” é leitura deliciosa e atual. Provoca reflexões existenciais e nos leva a pensar sobre nós mesmos e mesmas e sobre os paradoxos do nosso tempo. É ponte que, apesar do rio, este nascente e deságue, nos transporta para o campo aberto de leituras possíveis.

Boa leitura!

Professora Dra. Marluce Freitas de Santana, UNEB

Livro disponível nas versões ebook e física. www.amazon.com.br, www.amazon.com e demais lojas.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Memórias: os perfumes que ficaram



Esta é a história de uma avó que, desde a sua infância, enfrentou problemas como uma imposta separação dos pais por uma avó autoritária e que dominava praticamente o destino de toda a família. Foi ela quem administrou toda a infância e adolescência desta neta, até entregá-la a um casamento, cujo noivo foi ela mesma quem escolheu. A neta, sem qualquer direito de decisão, foi insinuada de prostituta, devido ao único envolvimento que teve com o noivo: um amedrontado aperto de mão. Durante toda a sua vida, freqüentou apenas um ano de escola. Empolgada para o recomeço das aulas do ano seguinte, o seu sonho foi desfeito quando a sua avó ficou sabendo que a sala de aula, até então formada por meninas, estaria matriculando, também, meninos. Mas, a sua força de vontade foi prevalecendo, e, empolgada pelas romances lidos por uma tia, foi ouvindo a obra de Machado de Assis, José de Alencar, Cervantes, entre outros, adquirindo, então, o conhecimento e o “gosto pela leitura”.

"É uma recordação muito vaga a que eu tenho de minha mãe, mas eu me lembro daquela cena como se fosse hoje. Ao mesmo tempo que está perfeitinha em minha cabeça, como se eu estivesse vendo tudo, não consigo explicar direito e com muitos detalhes. Queria tanto me lembrar de mais coisas! O rosto dela, a gente conversando, as palavras que ela falava comigo... Nem sempre a gente consegue lembrar daquilo que a gente quer, pois chega um tempo que as lembranças são como uma ventania, um tumulto na cabeça da gente e muitas coisas ficam embaralhadas no meio das lembranças. Tem acontecimentos que nunca vão virar recordações com todos os detalhes e isso, às vezes, impede a nossa satisfação. Na verdade, eu era muito novinha pra lembrar com perfeição da minha mãe, e é certo eu dizer que essas lembranças fizeram muita falta, pois eu já precisei muito delas nas minhas recordações."

(Fragmento do capítulo 2. "Memórias: os perfumes que ficaram")


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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Do livro "Fragmentos do Diário de Martha B.",


1 de março
Tantas coisas eu planejei dizer hoje a Simon e não disse! Eu, esta pessoa forte, destemida, cheia de impulsos, e eu mesma esta pessoa fragilizada, recolhida em um casulo, impotente. Eu tão desprendida e tão retraída, eu afoita, cheia de entregas, e eu mesma mergulhada numa profundidade de mim mesma. Eu lá fora, cheia de contentamentos e entusiasmos, e eu aqui dentro de mim, cheia de indagações perdidas na busca de questionamentos e respostas firmes. Eu assim, certamente uma cópia de muitas outras pessoas espalhadas por aí, caladas em seus quartos e a pensar e repensar os seus instantes mais íntimos, os sentidos das coisas, o sentido da dor, quando dor, e o sentido do prazer, quando prazer, o sentido da melancolia, quando melancolia, e o sentido da felicidade, quando felicidade. Coisas assim, o antagonismo das sensações e sentimentos envoltos na existência.
Nada de mais significativo que eu planejei falar a Simon, eu falei. Os meus sonhos quando a noite na profundidade do meu sono, a minha decisão de que não mais escreverei a ele com a minha caligrafia deslizando sobre os papéis... Nada disto falei. Eu recuando dos meus conflitos, eu recuando de cobranças, eu recuando de expor a minha própria vontade, eu com receios de abrir mão de Simon, mesmo com alguma certeza de que já não o desejo tanto, eu sem mais certeza do que sinto por ele.
O espírito e a carne. Que digo eu sobre uma relação tão íntima e tão oposta? Que digo eu do amor sublime? A felicidade a partir do amor, ainda que nem tão sublime, a minha carne, meu ventre, os meus seios sedentos... Tudo se distanciando de um elo que esteve seguro dentro de mim.
Nada daquilo que mais planejei expor a Simon depois de sua chegada eu expus, e eu me sinto um pouco frustrada e entristecida em meio a essas inseguranças. Como pode uma mulher que se revela tão segura de si ser fragilizada por uma base tão líquida e oscilante em seus movimentos rumo a algum porto seguro? E onde é esse porto seguro? Uma pergunta que eu até poderia arriscar a fazer ao psicanalista, mas o que ele me diria a não ser, suponho, reenviar a pergunta a mim mesma? Confesso que já senti alguma vontade de estar lá, retornar àquela sala, àquele ambiente de expurgação, mas logo reluto e desisto. Acho que eu ainda não expressei essa minha oscilação aqui: o de retornar às sessões de análise. Não sei se, necessariamente, ao mesmo psicanalista, mas ao propósito.
[...]. Não.