Era véspera de seu aniversário de trinta e um anos. Ela, sentada no pequeno tapete do seu quarto, estava atordoada, sentindo-se em véspera de outros anos ainda por vir. A inquietante sensação de que os anos passam em dobro, de dois em dois, de três em três, ela tão consumida em pensar no tempo e ele a devorá-la. Quase tudo o que desejava ou pretendia era sob a perspectiva de que não daria mais tempo, e ele, impetuoso, deslizava-se sobre um tapete de limo. Por um momento, ela escorregava sobre o mesmo tapete, mas o tempo viscoso deslizava muito mais veloz, até desaparecer de vez. Ela planejava coisas e logo imaginava que o tempo havia passado, ou já, ou era, ou foi. Não apenas ele. Ela igual a um redemoinho, o redemoinho travando, e girando, travando e girando. Ela tensa e ofegante dentro de casa durante quase todos os dias que eram para tantas outras coisas. Juntava pudores e receios demais, e depois quase nenhum, excessos e restos de coisas e pensamentos que ela nem sempre sabia para que serviam, para nada, para qualquer coisa, para uma sensação inexplicável, o olhar longínquo, a vaidade tornando-se tão rasa, a roupa, os cabelos, a pele, o pelo.
Tão jovem e tão envelhecida! Pensavam assim a seu respeito, “tão jovem e tão envelhecida”, lamentava sua mãe, preocupada, recuada pelos cantos a observá-la com um lamento pouco verbalizado para não a oprimir ainda mais. “Tão nova e tão estranha”, como se a estranheza fosse coisa da velhice. Os seus amigos, que já não eram tantos, também começaram a pensar assim. Pacientes, críticos, sutis, irônicos, “tanto faz”. Ela percebia o olhar de cada um, embora não parecesse, “tão jovem e tão envelhecida”, “tão jovem e tão estranha”. Não era bem assim, mas ela não conseguia sair desse lugar.
Dentro dela acumulava-se uma frase e outra, um olhar e outro, tudo tumultuado, peso sobre peso, o seu mundo em colisões. Era um incômodo, enquanto a ansiedade lhe corroía o estômago, cavava-lhe um buraco e depois outro buraco, e outro. No redemoinho, ficava sem se dar conta de que estava construindo um poço lá dentro. Às vezes, era um oásis. O poço e o oásis, lado a lado. Tantas coisas ao mesmo tempo e ela sem tempo, mesmo com ele diante dos seus olhos, desenhos abstratos nas paredes e nos tetos, tudo tão real e depois o vento. Tantos pensamentos aglutinados e depois o vento. Eram coisas e mais coisas dentro dos pensamentos e depois era o nada.
Pouco a pouco, quase sem perceber, passava a maior parte do tempo consigo mesma, ainda que tantas pessoas ao redor. Era ela quase sem partilhas, quase sem cor, por mais que o verde, por mais que o azul, por mais que o vermelho e o amarelo, por mais que o dourado. Era ela com um cansaço pálido, um desalinhamento, um sublime flerte com a apatia. Tudo se juntava dentro dela, comprimindo-se até não caber mais, manifestando-se no corpo, na pele, no organismo, o estômago corroído numa sensação de fome insaciável. Assustava-se, acalmava-se. Os cabelos amarrados, soltos, amarrados, novamente soltos, lentamente, e ela permanecia no mesmo lugar. “Tão bonita e tão descuidada”, repetiam, ela submergida em qualquer canto de si mesma.
No dia seguinte, logo ao acordar, sentiu-se surpreendida por algo que ela não sabia definir o que era. Ainda deitada, olhou para um lado, olhou para o outro, procurando o que ela também não sabia o que era, e sentou-se na cama, ainda surpreendida. Em seguida, olhou as horas, os primeiros sinais da luminosidade do dia, levantou-se, tateou o chão, as paredes, reencontrou coisas esquecidas e espalhadas pelos cantos da memória, ela criança e o receio de sê-la novamente.
“Não, novamente não.”
Assustou-se. Foi quando, mais uma vez, teve a sensação de que precisava recomeçar tantas coisas e apreender outras. Tanto tempo passado e perdido, ela pensava assim, e repetia as mesmas coisas, quase uma ladainha, uma litania sem fim, até que, socorrida por um cochilo e outro, apegou-se a um intempestivo desejo de sair daquele lugar. A criança começou a tatear tudo o que estava ao seu redor, e tateou a si mesma. Depois, quem tateou foi a mulher tão jovem e envelhecida. Todas tatearam, e ela sentiu que o socorro que lhe restava era levantar-se e tentar fazer qualquer coisa no mundo lá fora, ela absorvida pela força diluída como se um rio imenso estivesse levando-a no movimento das águas às vezes branda e outras vezes era uma correnteza dominando o rio e tudo o que nele havia.
Depois de tanto tempo prolongando um adverso percurso interior, cutucando coisas e rememorando palavras, ela entendeu que a vida, que o tempo, que as buscas, que os olhos, que a boca, que a pele, que o rosto, que o entusiasmo, que o começo, que o fim. E que Cinderela, e que Branca de Neve, e que a Mulher Maravilha, e que o Superman, e que Pateta, e que Pato Donald, e que Minnie, e que castelos e palácios, e que fantasmas. Ela entendeu que tudo, que nada, que o relativo, que o imutável. Ela entendeu que Dostoiévski, que Nabokov, que Clarice Lispector, que Proust, que Nietzsche, que Virgínia Woolf, que Kafka, que Freud, que a fantasia, que o sonho, que o real, que gênesis, que apocalipse. Ela entendeu. Talvez naquele dia, talvez nunca mais, talvez ontem, talvez amanhã, talvez até a hora seguinte. Ela entendeu que a passagem da noite, que a passagem do dia, que a passagem das horas. Ela havia entendido, mesmo que apenas naquele instante.
O redemoinho cessou.
Ela permaneceu sentada no tapete do seu quarto durante quase vinte minutos, rememorando tudo o que havia acabado de entender. Inclusive, que precisava apegar-se a uma felicidade, ainda que provisória. Ela havia entendido, sem se importar por quanto tempo. Assim, ajoelhou-se no chão, numa breve súplica, e levantou-se, decidida a sair do quarto, sair de casa, sair da rua, daquela, e atravessar um rio. Ela estava decidida. Contudo, não saiu do quarto, não saiu de casa, não saiu da rua...
Mas atravessou um rio.
In.: "Felicidade Provisória"