"[...] a mala se esvaziando, a mala se esvaziando, veementemente se esvaziando, sem nem mesmo alguma peça de roupa ter sido, pelo menos, dobrada e guardada dentro dela. A mala ainda vazia, completamente vazia, e já se esvaziando, se esvaziando, o fundo, o fundo da mala tão escuro de tamanha profundidade, e totalmente escancarado para o nada. Nada ali dentro da mala que seria tão pequena para o tanto a ser transportado, e o denso cheiro de vazio dentro da sua imensidão."
sábado, 25 de setembro de 2010
Rabiscos
Velhos papéis sobre a mesa, gavetas, caderno na estante.
Anotações.
Rabiscos pelos cantos de papéis
A vida escrita em guardanapos de restaurantes.
Folhas novas suplicando palavras
Suplicando
Suplicando palavras.
Felicidades caindo sobre as páginas
Nódoas do peito se debruçando sobre o papel
A página branca
Outra página pra lá e pra cá
A nostalgia das emoções.
Um sonho anotado, riscado, anotado, riscado, anotado...
E
Pelas bordas dos papéis
Instantes guardados, rasgados, guardados,
rasgados, guardados...
Anotações.
Rabiscos pelos cantos de papéis
A vida escrita em guardanapos de restaurantes.
Folhas novas suplicando palavras
Suplicando
Suplicando palavras.
Felicidades caindo sobre as páginas
Nódoas do peito se debruçando sobre o papel
A página branca
Outra página pra lá e pra cá
A nostalgia das emoções.
Um sonho anotado, riscado, anotado, riscado, anotado...
E
Pelas bordas dos papéis
Instantes guardados, rasgados, guardados,
rasgados, guardados...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
"Em caso de acidente", de ALA: Uma leitura
"Em caso de acidente", publicado no Segundo Livro de Crónicas, percorre a estrada de um possível desejo de partir, ir embora, tudo tão bem articulado, planejado desde a afirmação, destacada entre parênteses, e que pontua que “as chaves estão sempre no prato da entrada”. As chaves ali, atraentes, convidativas até que deixam de ser simplesmente chaves e passam a representar uma viagem, não desejada ao acaso, e construída ao redor de recordações e possibilidades outras que deslocam o narrador do seu presente instante. Um desaparecer sem livre de marcas de quilômetros ou de cidades, o próprio nome esquecido, e esquecidos, também, os nomes da família e do livro, não um livro qualquer sobre as estantes ou abertos sobre a mesa: “do livro que não acabo de escrever e que me angustia.”
O homem, a criança e o escritor, de repente, juntos. Todos, o mesmo. Sozinho, o escritor com o desejo de ir embora, pressionado pelo livro “inacabado” e a angústia do que falta, do que resta, o fim. E é ai que a criança entra, talvez como fuga, e entra o pai, a proteção, o abrigo, e a viagem é outra, o volante é outro: e ele segurava o guiador da bicicleta enquanto o seu pai corria ao seu lado, “me ensinava a pedalar”. E o pai, agora, o possível desejo da sua presença para proteger, também, o escritor, o descanso da escrita.
Depois, o retorno ao mesmo ao mesmo lugar de onde não houve a partida, de fato. O retorno às páginas que faltam e nelas todas as palavras e a continuidade do romance, ponto essencial na crónica Em caso de acidente e que nos leva a pensar a sua escrita entre a produção de um romance e a angústia que leva o escritor a experienciar uma vontade de ir embora: “Fazer romances. Publicá-lo. Receber telefonemas do agente acerca do contrato, de traduções, de prémios. Receber as críticas da editora, longos cortejos de elogios sem nexo de quem não entendeu e louva sem haver compreendido. Ou então sou eu que não compreendo.” E é assim que a voz repete diversas vezes a sua vontade de ir embora, e, ainda que não seja a vontade, é o estado de ser capaz de ir, refazer, abandonar a presente identidade e seguir.
"Em caso de acidente" é mais um lugar de representação da escrita, evidências e realidades que registram o quanto o árduo está paralelo ao prazer na construção das grandes obras. Aqui, lembramos o próprio Lobo Antunes: "Creio que os escritores em geral não trabalham muito os seus livros, não os corrigem. E é uma pena porque, por vezes, trata-se de uma única palavra, mas uma palavra que pode ser fundamental." (BLANCO, María Luisa. Conversas com António Lobo Antunes). É assim que o prazer devora o árduo em ALA, e o que nos chegam são textos lapidados, leituras exigentes.
O homem, a criança e o escritor, de repente, juntos. Todos, o mesmo. Sozinho, o escritor com o desejo de ir embora, pressionado pelo livro “inacabado” e a angústia do que falta, do que resta, o fim. E é ai que a criança entra, talvez como fuga, e entra o pai, a proteção, o abrigo, e a viagem é outra, o volante é outro: e ele segurava o guiador da bicicleta enquanto o seu pai corria ao seu lado, “me ensinava a pedalar”. E o pai, agora, o possível desejo da sua presença para proteger, também, o escritor, o descanso da escrita.
Depois, o retorno ao mesmo ao mesmo lugar de onde não houve a partida, de fato. O retorno às páginas que faltam e nelas todas as palavras e a continuidade do romance, ponto essencial na crónica Em caso de acidente e que nos leva a pensar a sua escrita entre a produção de um romance e a angústia que leva o escritor a experienciar uma vontade de ir embora: “Fazer romances. Publicá-lo. Receber telefonemas do agente acerca do contrato, de traduções, de prémios. Receber as críticas da editora, longos cortejos de elogios sem nexo de quem não entendeu e louva sem haver compreendido. Ou então sou eu que não compreendo.” E é assim que a voz repete diversas vezes a sua vontade de ir embora, e, ainda que não seja a vontade, é o estado de ser capaz de ir, refazer, abandonar a presente identidade e seguir.
"Em caso de acidente" é mais um lugar de representação da escrita, evidências e realidades que registram o quanto o árduo está paralelo ao prazer na construção das grandes obras. Aqui, lembramos o próprio Lobo Antunes: "Creio que os escritores em geral não trabalham muito os seus livros, não os corrigem. E é uma pena porque, por vezes, trata-se de uma única palavra, mas uma palavra que pode ser fundamental." (BLANCO, María Luisa. Conversas com António Lobo Antunes). É assim que o prazer devora o árduo em ALA, e o que nos chegam são textos lapidados, leituras exigentes.
domingo, 15 de agosto de 2010
Quase
Depois de um tempo em busca de um título para o romance, acredito que encontrei um que muito me agrada, por definir bem o enredo, a partir de palavras que considero essência do texto, como rio, quintal, jardim, gavetas, água, muita água em suas metáforas.
O que é e o que não é “real” num mundo construído pelo pensamento, pelo desejo, pela existência das coisas que “não são”? As verdades de cada coisa, a força da imaginação, a visibilidade das coisas, tudo construído pela palavra e pelo olhar. O olhar de cada um, e o alcance das imagens de cada um. É lá que está o horizonte.
Real, denso, bastante denso, mas há ali algo de esperança: gavetas e mais gavetas de onde cada personagem guarda ou retira os seus rios, as suas águas, os seus quintais, os seus jardins, os seus pedaços, e as suas vivências silenciosamente compartilhadas. Por mais escassos que sejam os diálogos, há ali a voz de algumas palavras, mesmo que calada. É quando surgem os murmúrios, a voz que deixa de ser quase calada, o grito, o olhar, e novamente um silêncio nem sempre denso, nem sempre distante, nem sempre ausente, mas ali, afetos compartilhados, sutilmente depois o círculo, ininterrupto.
Já revi os dois primeiros capítulos, e agora já avanço no terceiro. Ao ler o primeiro, que estava com 23 páginas, senti vontade de abandoná-lo. Começaria tudo a partir do segundo capítulo. A sensação de que eu já estava cansado demais para rever, reler, enxugar, refazer… Mas não, eu sabia que ali estava o começo, a matéria, eu tinha a matéria, faltava a paciente restauração das ideias iniciais que chegam às vezes com muita volúpia. Pronto. Agora são 20 páginas, e sei que além dos cortes feitos nos demais capítulos, outros ainda acontecerão, outras palavras serão substituídas e frases que serão reestruturadas. Mas é exatamente assim, uma busca que parece incessante.
O que é e o que não é “real” num mundo construído pelo pensamento, pelo desejo, pela existência das coisas que “não são”? As verdades de cada coisa, a força da imaginação, a visibilidade das coisas, tudo construído pela palavra e pelo olhar. O olhar de cada um, e o alcance das imagens de cada um. É lá que está o horizonte.
Real, denso, bastante denso, mas há ali algo de esperança: gavetas e mais gavetas de onde cada personagem guarda ou retira os seus rios, as suas águas, os seus quintais, os seus jardins, os seus pedaços, e as suas vivências silenciosamente compartilhadas. Por mais escassos que sejam os diálogos, há ali a voz de algumas palavras, mesmo que calada. É quando surgem os murmúrios, a voz que deixa de ser quase calada, o grito, o olhar, e novamente um silêncio nem sempre denso, nem sempre distante, nem sempre ausente, mas ali, afetos compartilhados, sutilmente depois o círculo, ininterrupto.
Já revi os dois primeiros capítulos, e agora já avanço no terceiro. Ao ler o primeiro, que estava com 23 páginas, senti vontade de abandoná-lo. Começaria tudo a partir do segundo capítulo. A sensação de que eu já estava cansado demais para rever, reler, enxugar, refazer… Mas não, eu sabia que ali estava o começo, a matéria, eu tinha a matéria, faltava a paciente restauração das ideias iniciais que chegam às vezes com muita volúpia. Pronto. Agora são 20 páginas, e sei que além dos cortes feitos nos demais capítulos, outros ainda acontecerão, outras palavras serão substituídas e frases que serão reestruturadas. Mas é exatamente assim, uma busca que parece incessante.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
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