sábado, 15 de março de 2014

O tempo e o cristal



O tempo é um vaso de cristal
disse o filósofo ao outro,
Um vaso de cristal, repetiu
ao que o outro respondeu:
O cristal não resiste ao tempo
mas o tempo ao cristal.
portanto, o tempo pode ser vaso
mas não de cristal.

O tempo é um vaso de cristal,
persistiu o primeiro filósofo:
É tão sensível que passa, evapora, a todo instante.

Um terceiro filósofo resolveu então se manifestar:
O cristal não passa, ele dura.
Até os seus fragmentos resistem ao tempo
mas o tempo não, ele não permanece.
Ele se vai a todo instante, se torna passado.
Até mesmo o presente e o futuro passam
e o tempo já não é, pois logo se faz outro.

Entreolharam-se, os três filósofos,
enquanto o tempo passava
e o cristal resistia a ele,
ainda que em fragmentos.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

As palavras se vão


E depois as palavras desapareceram novamente. Elas desapareceram, depois de algumas ou tantas ao mesmo tempo, juntas. Harmoniosas ou não, juntas: elas saltitantes, arrumadas em fileiras, espalhadas na folha do caderno, ordenadas no livro aberto sobre a mesa e dentro de outros fechados na estante; as palavras na tela do computador e no outdoor da grande avenida; elas delirantes, sóbrias, compulsivas, e elas no silêncio: as palavras rodopiando na memória.

Elas sumiram. As palavras. Depois de (re)encontradas dentro do jarro de cristal, dentro da gaveta, no vaso de lixo, debaixo do chuveiro, em cima da estante, em cima do amontoado de livros, no meio da bagunça, no meio da prosa, colado no álbum de fotografia. Que ninguém se iluda. As palavras desaparecem. Elas somem em algum lugar que podemos chamar de névoa, labirinto, tantos nomes, tantos lugares, elas se fragmentam e depois somem.

As palavras se vão. Elas partem, vão e partem, e novamente a inquietude de buscá-las. Elas desaparecidas nas gavetas da memória e nas outras, no meio ou num canto da página, em vasos, nem todos de cristal. Elas em qualquer que seja o lugar e o prazer do encontro. Reencontro. As palavras desaparecidas estão detrás de qualquer espaço que pode ser chamado de névoa, labirinto, intuição, qualquer nome que seja lugar.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A palavra estava



Encontrei a palavra
Dentro da mala
Dentro da caixa
Dentro do jarro
Dentro da gaveta
Dentro do vaso de lixo
Dentro.

Encontrei a palavra
Debaixo do chuveiro
Debaixo da cama
Debaixo do cobertor
Debaixo do tapete
Debaixo do vaso de cristal
Debaixo.

Encontrei a palavra
Em cima da estante
Em cima da toalha da mesa
Em cima do amontado de livros
Em cima da cama
Em cima da pia do banheiro
Em cima.

Encontrei a palavra
No meio da bagunça
No meio da rua
No meio da ponte
No meio da prosa
No meio do gole
No meio.

Encontrei a palavra
Dentro do olhar
Do lado de fora
Ao lado da cama
Colada no álbum de fotografias.

[-Tantas coisas a mesma palavra!]

sábado, 18 de janeiro de 2014

Reinventando olhares


Ao acordar, deparou-se com a parede do quarto completamente umedecida. Apesar de sua perplexidade inicial, foi invadido por uma brandura, pouco a pouco uma brandura e um espírito contemplativo diante da parede branca. A tinta resistente em sua espessura tão estreita, pele, película, camada endurecida pelo tempo, agora deslocada da estrutura do alto a baixo da parede. Ele permaneceu ali, de olhos fitos e olhar contemplativo, revirando páginas, reinventando olhares. Pouco a pouco, aquela camada se desprendia da parede como se gotas de água se acumulassem ali detrás, criando pequenos poços, alguns maiores, outros menores, a camada inteira prestes a se desprender da parede, deixá-la nua, sem cor, sem brilho. Ele contemplava aquele instante, mergulhava naqueles poços de água, enfrentava a correnteza, ele seguro de que ali detrás havia uma fortaleza, a parede intacta, revestida, ele nu debaixo da colcha branca, a sublime ausência de cor nas paredes, no tecido, na nudez. O algodão agora revestia o tecido branco sobre a cama, os seus fios resistentes, até quando, até onde. Ele, ali, horas depois, antecipava em seu olhar uma nova camada de tinta sobre a parede. Espessura resistente, a pele, a tinta, outra, outra vez revestindo a parede, até quando, até onde, até.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Um Cheiro de Tempo Encardido


Todos os sábados, ao final da tarde, na janela da casa soturna e recuada surgia um certo homem de olhar tênue entre sereno e melancólico. Um homem estático! Quase uma fotografia a observar o pequeno mundo lá fora, e que nunca havia crescido nem mesmo em seu olhar. Todos os sábados ele passava um tempo a ver as casas de frente a sua, paisagem nunca retocada em suas cores ofuscadas pelo tempo e descolorindo ainda mais o seu mundo. Durante aqueles dois a três minutos na janela, ele olhava os raros transeuntes que transitavam na rua enquanto ele era quase fotografia: de vez em quando algumas crianças gritavam ensurdecendo o seu silêncio e o de sua pequena cidade, e ele, num momento de surdez causada pelo seu distanciamento do presente instante, não ouvia nada além dos movimentos das bocas ecoando gritos abafados.

Numa junção de instante e numa emissão de voz que apenas ele ouvia, apossava-se de uma serenidade e respondia boa tarde aos que o cumprimentavam, ele sem nenhum desejo de cumprimentos, aliás, não era exatamente falta de desejo. Depois, fechava a janela até que chegasse o sábado seguinte, quando às 7h00 da manhã ele era um dos primeiros a chegar à feira, onde rapidamente fazia as suas compras e logo retornava para casa, auxiliado por um carregador ambulante que deixava tudo à sua porta. As compras seguintes eram apenas o pão na padaria perto de sua casa, dia sim dia não, ao retornar do trabalho ao final da tarde.

Todos os dias, de segunda a sexta-feira, em torno das 7h40 da manhã ele abria a porta simples de sua casa simples e, inibido com o desconforto de se sentir observado, olhava disfarçadamente para o clarão da rua. Receoso de ter que responder bom dia logo ao amanhecer, trancava a porta, retirava a chave, e nunca deixava de empurrá-la para se certificar de que estava realmente trancada. Repetia o mesmo processo ao retornar do almoço para o trabalho, todos os dias a mesma coisa, sem qualquer mudança. Ali estava ele: um homem elegante.

Apesar de possuir uma leve curvatura na coluna, pescoço curto e a cabeça inclinada para o lado, tinha uma postura elegante. Era magro, alvo, estatura mediana, e possuía cabelos negros e lisos, sempre bem penteados. Nenhum fio de cabelo parecia fora do lugar, eis uma de suas características mais marcantes. Ele, o homem elegante, usava, todos os dias, calças de linho, camisas de algodão, um paletó azul marinho, periodicamente substituído por um de cor preta, sapato social preto, criteriosamente limpo, e nunca deixava o seu guarda-chuva em casa, não apenas por precaução contra o sol e os raros dias de chuva. Todas as roupas revelavam o tempo e o excesso de uso, tão gastas, mas sempre usadas como se adquiridas recentemente. Ao contrário dos sapatos, gastos mas bem limpos, as camisas traziam em seus colarinhos marcas de suor enegrecido pelo pó da pele, sempre a mesma camisa no decorrer de cada semana. Desde muitos anos atrás, nunca mais uma roupa nova, nunca mais uma peça a mais, nunca precisava de nada a não ser alimentos regados, a luz de baixa voltagem, a água, a escuridão da noite a ouvir o seu silêncio, e uma coisa e outra quase despercebidas. Tudo tão estático em seus desejos.


Depois de certificar que a porta estava fechada, subia a rua de sua casa, a mesma rua de seu local de trabalho. Três quarteirões depois, e sempre à direita, atravessava a rua que dava acesso a um pequeno jardim da cidade, prosseguia em sua calçada, novamente atravessava a rua, e na esquina adentrava em seu trabalho. Na sala, compartilhada com mais dois funcionários, retirava o paletó, usado sem ser exigência de sua função, pousava no encosto da cadeira, retirava o relógio de corrente do bolso da calça, e sentado com as mãos sobre a mesa, aguardava que os ponteiros marcassem 8h00 da manhã. Então, iniciava o seu meticuloso desempenho com a sua caligrafia impecável. Era um artista ao protocolar e registrar com as suas letras e palavras rebuscadas o cumprimento de seu ofício.

Desempenhava eximiamente as suas funções, falava apenas o necessário, e, apesar de gentil quando a ele recorriam, nunca desenvolveu amizades no trabalho, nem no percurso de casa, nem na feira, nem na padaria. Nunca alguma visita em sua casa, desde muitos anos atrás, e nunca aceitava convites a ele feitos, desaparecidos com o decorrer do tempo. Na confraternização de final de ano, apenas uma vez ele esteve presente durante os quase vinte e cinco anos de trabalho. Uma vez, para nunca mais. Ele ainda tão jovem. Sentiu-se tão deslocado, muito mais inibido. Sentiu-se um inseto, depois um homem se transformando num inseto, numa barata, uma lagarta escorregando num lamaçal, ele uma ave de asas atrofiadas num esforço imenso de voar para qualquer lugar que fosse longe, distante; vontade de estar em seu quarto empilhado de tantas coisas desnecessárias, ele, ele mesmo com tanta vontade de sair correndo daquele lugar, e desapareceu. Desapareceu para nunca mais qualquer que fosse a confraternização.

Era um sábado quando ele relembrou aquele dia. Naquele dia, e não apenas por causa disso, ele não abriu a porta de casa, não foi à feira, não apareceu na janela, e nem foi paisagem estática e de olhar misterioso diante do pequeno mundo lá fora. Passou o dia inteiro transitando em poucos movimentos pela casa, de um lado para outro em seus pequenos e poucos compartimentos: a sala, os dois quartos, a cozinha, e um quintal quase do tamanho da casa inteira. O dia inteiro transitando diante dos reflexos das paredes de tintas envelhecidas, o tempo encardido nos móveis, na toalha sobre a mesa, nas fronhas e nos lençóis, e três antigas fotografias em preto e branco em suas molduras empoeiradas, fincadas na parede da sala: a casa inteira empoeirada, o cheiro de tempo abafado, mofado, envelhecido dentro dos guarda-roupas, dentro das gavetas, detrás de cada coisa e de cada pensamento naquela casa. Naquele dia, algo lhe apertava o peito: cansaço, fadiga, o afeto dolorido, o amor dolorido, o corpo inteiro dolorido. Então, ao final da tarde, depois de um longo tempo sentado em seu quarto, se dirigiu até o outro quarto, onde a porta permanecia sempre aberta. Ali, sentou na poltrona de frente para a cama e ficou a contemplar o rosto daquela mulher envelhecida pelo tempo. Tantos anos!

Tantos anos e ela prostrada naquela cama. Ele, todos os dias, estava ali ao seu lado, presente, entregue muito mais que a si mesmo. Permaneceu sentado como de costume, e o silêncio começou a se aprofundar ainda mais naquele quarto, enquanto as suas raízes germinavam em todos os cantos da casa. Poucas, bem poucas palavras, reduzidas e mais pausadas com o decorrer do tempo. E, com o tempo decorrido, era agora palavras em devaneios, o olhar estabelecendo diálogos, o olhar parado diante do teto, diante do vazio, diante de alguma lucidez que apenas ela sabia se ainda havia. Ele sentia tanta vontade de saber se ainda havia nela alguma lucidez! Às vezes, ele desejava que sim, e muitas vezes ele desejava que não. Preferia que ela não se apercebesse ali, prostrada naquela cama durante anos; preferia que ela não sentisse a sua nudez invadida, ela sempre tão recatada, e ele levado e despi-la, elaborando habilidades para que nunca precisasse encarar a sua nudez mais íntima. Nunca! Ele tão constrangido e recatado com a própria nudez.

Depois de pensamentos entrelaçados no tempo, ele se levantou, se aproximou da cama, olhou com suavidade o seu rosto, e contemplou aquele olhar tão suavizado naquele instante. Ele teve uma sensação que lhe foi tão estranha: vislumbrou um azul marcante em seus olhos, eles em movimentos suaves como os de nuvens calmas, o quarto cheio de nuvens. Tomado por um sentimento de esvaziamento, ajoelhou diante da cama, pegou em uma de suas mãos, permaneceu olhando para o seu rosto, a noite iluminada pela luz fraca amarelada, e ali ele cochilou não mais que cinco minutos. Sonhou, despertou, olhou atentamente o seu rosto, levantou-se, olhou-a ainda mais atentamente, e então colocou as suas mãos uma sobre a outra e saiu do quarto.

Ao amanhecer, ele abriu a porta do fundo da casa, recostou-se na parede, o tempo ainda enegrecido e revelando os primeiros sinais de luminosidade! Tudo ainda turvo, lá fora e lá dentro dele. Não dormiu naquela noite. Um cansaço, um enfado, mas, mesmo assim, ele sentia uma serenidade caindo como gotas ao final de um temporal. Todo temporal cessa, ele pensou, naquele dia que parecia nunca mais acabar. Todas as horas cessam, ele pensou, logo em seguida. Ele, sem saber se seria melhor que o dia acabasse logo ou se durasse o tempo de vários anos, permaneceu encostado ali na parede, observando a noite partir de vez. E o dia surgiu numa luminosidade radiante.

Na segunda-feira, às 7h40 da manhã, ele abriu a porta da casa e surgiu em seu paletó preto. Pela primeira vez, não trazia consigo o seu guarda-chuva. Ele, elegante em sua roupa bem gasta, iniciou o seu percurso habitual. Ao percorrer o jardim, olhou para o alto, o Céu bem no alto, atravessou a rua, entrou em sua sala de trabalho, colocou o relógio sobre a mesa, e em seguida pousou também as suas mãos. Estático como uma fotografia e numa paciência que lhe era comum, aguardou que os ponteiros marcassem, pontualmente, 8:00 da manhã.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Degustando o perfume


Ela, ao adentrar o jardim vazio, imaginou o jarro da sala cheio de flores e nem se importou com a ausência do colorido que antes o enfeitava. Ao percorrê-lo, imaginou algumas coisas que tanto desejava, e a elas deu veracidades impressionantes: realidade e imaginação se confundiam e uma se via na outra como o próprio reflexo em seus espelhos. Quando a realidade agradável se ausentava, a sua imaginação criava outra que também a satisfizesse. Tornava-a tão feliz! E algumas vezes era uma felicidade evaporada no jardim, desaparecida no meio das suas flores, ou nas flores estampadas em algum canto do lençol ainda amassado sobre a cama. Uma felicidade frágil como bolas de sabão, nostálgico como um adeus dado no último vagão do trem, qualquer coisa assim. Para ela, principalmente em seus dias mais eufóricos, nada precisava ser para existir, se tudo era tão perceptível em sua contemplação indescritível. Assim, exatamente assim, ela atravessou o jardim e abriu a porta da casa.

O jarro estava repleto de flores colhidas no jardim. Repleto. Não apenas repleto de flores, mas elas harmoniosas, vivazes como se as suas pétalas houvessem se multiplicado e transformadas em outras, ocupando quase toda a sala. Não era imaginação, não era. Era uma realidade tamanha e não havia como negá-la, ainda que ela assustada com a inimaginável multiplicação das flores e com o restrito espaço para transitar na sala. As demais flores, aquelas que não estavam ou não estiveram no jarro, estava abundantemente espalhadas em vasos de cristal que enfeitavam os outros cômodos da casa. Os vasos impecáveis e deslumbrantes, mas que, naquele dia, foram ofuscados pelas flores em suas cores brandas, suaves, cores calmas. Algumas quase invisíveis quando no meio de flores tão vistosas no jardim. Quase. Não mais que isso.

Ela, deslumbrada depois de admirar a imensa sala até onde o seu olhar alcançava, encostou a porta, deixando-a entreaberta, deu alguns passos a frente, até ter uma imagem do quarto, o vaso, as flores, e sentiu uma emoção forte, muito forte, como há tempo não sentia. O perfume das flores não apenas adentrou o seu olfato de maneira demais agradável, mas também impregnou em sua pele, ela assim sentiu, e o perfume fazia reluzir a sala como se fosse luz. Àquele instante ela chamou Iluminado. Sem conseguir conter o deslumbramento, ela prostrou-se no chão, de joelho, mais uma felicidade inesperada, um vento inesperado, uma musicalidade vinda dos vasos de cristal...

Minutos depois, numa também inesperada sonolência, ela recostou-se na poltrona ao lado, sorriu com tanta delicadeza, olhou a porta entreaberta e nem se importou em fechá-la. Dormiu degustando aquele perfume. Degustando. Não apenas sentindo o seu cheiro lá no fundo da alma.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Imprevisibilidade


O alívio chegou de repente
sem explicar origem e destino.
Sugeriu que não dá para prever
a hora
exata
de sua chegada

[e que ele chega,
mas
pode partir
num breve ou longínquo passar das horas]

[e que
depois da agonia
pode ser o contentamento quase sem fim]

O alívio chegou ao desligar o telefone
depois de palavras sem mais sentido

algum.