e depois ainda teve coragem de cutucar com vara curta para ver se era verdade. Nem precisou cutucar pela segunda vez, pois S.P.T já foi logo levantando os ombros e levantando as mãos e estendendo as mãos, e os seus olhos foram se expressando de uma maneira estranha e insinuando que estava pronto a fazer qualquer coisa para realizar os seus desejos. Não os seus próprios desejos, mas os dele, que estava bem ali diante do seu olhar disfarçado de quem nem estava prestando atenção em seus passos. Ai pronto, foi só falar em realizar desejos que a cabeça de Noimarel deu logo aquela enlouquecida guinada e imaginou-se fazendo todas as coisas que a sua carne trêmula desejava. No princípio, até que ficou desconfiado da veracidade daquele sorriso, pois não podia acreditar que tantos prazeres estavam bem ali diante dos seus olhos: e ele poderia colocar o seu próximo passo no degrau que ele mais ansiava. Até que pensou que poderia haver alguma verdade que não as estampadas nas promessas cantaroladas, docemente, por S.P.T, pelas quais, ele, Noimarel, era capaz de dar a sua vida enfeitada com cores e com roupa "luxenta", “podre de chic”, como ele gostava. Aqueles ingressos plurais em suas mãos, o dinheiro da moda, um álbum cheinho de fotografias com tantos rostos à mercê de uma liberdade de escolha a três por quatro, no quarto ou na rua. Mas, se ao menos as coisas parassem por ai!...
No entanto, exatamente depois de ter acontecido tantas coisas que lhe doeram em tantas partes, achou de cutucar S.P.T com a vara curta, de tão quebrada que as suas pontas já haviam sido. No começo, até que ficou com aquele meio receio: quando alguns filmes antigos, e de ontem, e de sábado, e do mês anterior passaram iguais a relâmpagos e trovões pela sua cabeça. Mas, depois da primeira manifestação de ter sido espicaçado e atiçado por S.P.T, havia travado uma guerra: aparentemente sutil. Dessa história contaram que, no primeiro vacilo dado por Noimarel, S.P.T fez de conta que estava se espreguiçando e, naquela de estirar os braços, foi lá e “crau”: puxou aquele pedaço de vara que já estava tão curta e a tornou em mil pedacinhos: a ponto de suas unhas ficarem bem encardidas por aquela estranha tinta furta-cor. Neste momento, ele teve um sintoma de pânico e até sentiu uns calafrios estremecendo a sua garganta. Porém, não se sabe se foi mágica, mas sabe-se que, diante do seu olhar espantado, S.P.T juntou aqueles pedacinhos de madeira até que, de repente, a vara estava inteirinha novamente. Tudo isto diante do olhar perplexo de Noimarel, que foi tomado por um desejo compulsivo de observar cada foto daquele álbum de fotografias. S.P.T virou as costas por uns poucos segundos e, quando virou de frente, foi com aquele sorriso largo, misterioso, e estendeu diante dos olhos de Noimarel uma varinha completamente dourada de um puro ouro, que de tão dourada não suportou a própria sedução e virou fogo: aquele ouro se esparramando pelo chão. Noimarel, que se achava tão esperto e dotado de todas as peripécias de ocultar as suas ações irreveláveis, quase deu um grito de pavor, mas, sorriu ao concordar que aquela varinha poderia encantar todos os seus desejos de sedução e planos outros. Pronto: em meio a calafrios, nem percebeu que uma porção de cera vermelha havia caído diante dos seus pés: vinda daquela varinha que era mais do que de condão. S.P.T tinha a mórbida mania de usar este gesto como um selo de acordo, sorrateiramente!
Noimarel ficou ali meio querendo sair e meio querendo ficar, quando percebeu que um terceiro calafrio fez estremecer todo o seu corpo. Disfarçou que tudo era uma brincadeira: da vara, um livro de páginas velhíssimas foi lançado aos seus pés. A capa era novíssima, como impressa naquele exato momento. Olhou bem para o título do livro, e tomado por um pavor, correu para o seu quarto, que já não era o seu quarto. Percebeu que estava tão escuro, que ele seria capaz de fazer qualquer coisa para voltar ao brilho daquela varinha que só podia mesmo era ser mágica. Ficou ali titubeando. De repente, foi tomado por uma angústia que se misturava com as tantas coisas maravilhosas que dizia estar vivendo. Estranhou aquela escuridão e lamentou baixinho o estar num abominável e bolorento quarto gelado, onde, de forma obscura, a desejada luz havia atravessado os vidros da janela que ele mesmo havia pintado num dia de muita euforia. Ficou ali pensando estas coisas, e estas palavras pareciam ecos de palavras que lhes eram intimamente presentes.
Não suportando aquele negrume, recorreu ao brilho misterioso da varinha de condão. Daí pra frente, como se tomado por algum efeito de poção mágica, foi se entregando a todos os caminhos que ela lhe conduzia. Abriu aquele álbum de fotografias e fez viagens dionisíacas. Suores pelo seu corpo, umidades de prazeres em suas entranhas, embalado pelo erotismo de um gosto musical peculiar. Sentia o impregnar de tantos corpos ao seu, num verdadeiro fluxo de consciência. Luzes diversas estavam brilhando em sua vida, uma verdadeira festa como sempre ambicionava. O seu sorriso se alargava e já nem mais sentia saudades de algum tempo: se o seu futuro lhe era promessas de tantos álbuns de fotografias fascinantes.
Um dia, porém, o pêndulo voltou a oscilar para trás. Pode parecer estranho, mas o primeiro indício perceptível foi uma crosta grossa que começou a nascer em sua cabeça, entrelaçando em cada fio dos seus cabelos, enraizando pela sua testa, em volta das suas orelhas, até se manifestar no meio das suas costas. Pode parecer estranho: o seu perfume foi invadido por um mal cheiro que afetava todos os seus hálitos. Então, numa madrugada em que o seu peito se corroía de tremor, levantou-se da cama e, subitamente, se lembrou daquela varinha que havia se tornado em ouro até se tornar em fogo e, derretida, se espalhou pelo chão.
Num gesto de súplica, mesmo contra a sua vontade, evocou por S.P.T, mas não mais o encontrou. Visualizou o reluzir dourado da varinha, na tentativa de fitar a profundeza do seu brilho, entretanto, não encontrava forças ao sentir que aquela luz poderia destruir a sua retina. Queria penetrar o infinito em busca de respostas, mas, diante do que lhe era impossível, se sentiu lançado do êxtase do contentamento para uma dor que lhe ardia a alma. Deixou-se cair pelo chão e, sussurrando ao seu coração, queixou a si mesmo de um espetáculo tão maravilhoso e que começava a desaparecer diante dos seus anseios! “Tão somente um espetáculo, um espetáculo encantador!...” Lamentava. E falava de uma vontade de agarrar entre as suas mãos e o seu peito a infinita natureza que estava diante dele! “Nesta dor que em mim arde pareço me consumir!”, balbuciou; e chorou um pouco, com a escassez do seu choro. Lembrou-se da estranha permuta feita em busca de suas expectativas e da sua velada coragem em ceder o que de mais intimo possuía. Ficou ali prostrado com o rosto colado em seus desejos, até que uma meia-luz apareceu sobre os seus ombros e, garante ele, uma espécie de voz penetrou em seus ouvidos, dizendo que podemos ser livres para fazer a primeira escolha, mas que da segunda em diante pode ser que nunca nos seja cedida o comando. Enquanto ele refletia sobre estas palavras, um estridente e ensurdecedor assobio ecoou, pungentemente, em seu ouvido.
Em meio a uma melodia densa e inesquecível, ele ouvia palavras e assobios que dilatavam em seu peito a sensação de que eram semelhantes a ecos de uma história que muito já havia escutado.
"[...] a mala se esvaziando, a mala se esvaziando, veementemente se esvaziando, sem nem mesmo alguma peça de roupa ter sido, pelo menos, dobrada e guardada dentro dela. A mala ainda vazia, completamente vazia, e já se esvaziando, se esvaziando, o fundo, o fundo da mala tão escuro de tamanha profundidade, e totalmente escancarado para o nada. Nada ali dentro da mala que seria tão pequena para o tanto a ser transportado, e o denso cheiro de vazio dentro da sua imensidão."
terça-feira, 21 de abril de 2015
sábado, 28 de março de 2015
A vida dentro da mala
A vida dentro de uma mala velha, fechadura enferrujada pela dor angustiante de um tempo passado. A coleção de relógios espalhada pelo chão, abandonada depois dos dias que mais nada parecia lhe interessar. A vida que se tornara mofa dentro da mala, forro em cetim que desde tempos atrás não mais resistiu às expectativas se esvaziando até tornar-se pó. Pó como a vida se torna, ferrugem como a vida se torna, quando se passa pela vida agarrados a passados que se foram, e amarrados aos dias que já excederam todos os seus limites. Abandonados. Abandonados os momentos que chegariam em êxtases. Abandonados, abandonados os instantes, os melhores instantes atravessando imperceptíveis pelas janelas, enquanto o horizonte grita quase se explodindo sobre os seus pés. Alheio aos seus olhos, o instante presente emudece; o olhar mofo, enrugado, necrose contornando as olheiras negras; e os olhos quase fechados, aconchegando-se doloridamente ao passado que nem existe mais.
A janela fechada e as portas quase lacradas para a claridade dos dias. A quase escuridão da casa em pleno sol latejando o mundo lá fora, alheio àquele universo reprimido por um ar morno, cheiro de tantas coisas guardadas, papéis e objetos plurais de sentidos, móveis que há tanto tempo fincaram as suas verdades em espaços imóveis. E ela. Ela incapaz de rever as horas, um peso em seu corpo, impedindo o movimento das paisagens encarnadas nas páginas dos livros que lhe foram os preferidos nos dias que se tornaram apenas recordações. O seu olhar turvo, cálido, nocauteando as imagens dos quadros na parede, prazerosamente adquiridos nos dias em que a vida era.
Tantos dias e tantos anos dentro de um só. Tantos dias e tantas horas em apenas um dia. Cenários mudos, o coração exausto, suportando a densidade das horas que, sem piedade, sobre ela caiam. Ela, agarrada ao silêncio e ao incessante fluxo dos seus pensamentos, nem percebeu que a casa havia escurecido de vez. Uma penumbra negra, melancólica, exasperada. Aquelas palavras lacradas e acolhidas pela sua memória, eternizada.
Em "O Silêncio e a Bagagem" (2008)
A janela fechada e as portas quase lacradas para a claridade dos dias. A quase escuridão da casa em pleno sol latejando o mundo lá fora, alheio àquele universo reprimido por um ar morno, cheiro de tantas coisas guardadas, papéis e objetos plurais de sentidos, móveis que há tanto tempo fincaram as suas verdades em espaços imóveis. E ela. Ela incapaz de rever as horas, um peso em seu corpo, impedindo o movimento das paisagens encarnadas nas páginas dos livros que lhe foram os preferidos nos dias que se tornaram apenas recordações. O seu olhar turvo, cálido, nocauteando as imagens dos quadros na parede, prazerosamente adquiridos nos dias em que a vida era.
Tantos dias e tantos anos dentro de um só. Tantos dias e tantas horas em apenas um dia. Cenários mudos, o coração exausto, suportando a densidade das horas que, sem piedade, sobre ela caiam. Ela, agarrada ao silêncio e ao incessante fluxo dos seus pensamentos, nem percebeu que a casa havia escurecido de vez. Uma penumbra negra, melancólica, exasperada. Aquelas palavras lacradas e acolhidas pela sua memória, eternizada.
Em "O Silêncio e a Bagagem" (2008)
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Prefácio do livro "Enquanto as folhas são espalhadas pelo vento" (2002) (Parte)
Enquanto ouço algumas das diversas histórias que surgem no dia a dia, inevitavelmente vou criando imagens, frases, parágrafos e, descompromissadamente, os visualizo como possibilidades de contos. Algumas vezes, tento transcrevê-los e percebo que não passam de empolgações de um instantes ou que nem tudo é contagiante quando vai para o papel. Parece haver o vazio da descoberta, ao menos para o ato de escrever, quando os significantes terminam não satisfazendo a angústia e o prazer da procura. No entanto, além de uma possível elaboração dessas histórias, mesmo correndo o risco de, algumas vezes, se tornar um texto insosso, é possível criar e recriar a partir dessas diversas situações. A história pode se tornar uma outra, independente, adquirindo a sua própria voz em meio a possíveis semelhanças entre o que foi e o que é.
Foi assim que comecei a elaborar e também a desistir de alguns contos. Alguns deles se perderam pelos primeiros parágrafos; outros insistiram em suas existências mesmo que para permanecerem engavetadas. Porém, mesmo desconfiado, fui acreditando que alguns deles, em meio a esforços e exercícios, conseguiram agradar a alguns leitores abertos a leituras, digamos, experimentais. Revisões diversas e a angústia de nunca vê-los impassíveis de mudanças. Até que um dia, como um frito de curiosidade e de desejo forte de arriscar, tomado por uma coragem de realizá-los como literatura, eles chegaram até aqui, se expondo, talvez pretensiosamente, como resultado de textos concluídos - até o instante de cada leitor prossegui-los com os seus próprios questionamentos e conclusões.
O primeiro desta série de contos é exatamente o que dá título ao livro. Era inverno de 2000 e, depois de um longo tempo olhando a imagem exposta lá fora, as árvores secas, as folhas amareladas e avermelhadas a rolar pelas ruas ainda com resto de neve, paisagem sombria e a me remeter a uma outra imagem longe, distante, porém muito mais próxima do que tudo naquele instante, frases foram sendo formadas na tentativa de transcrever aquela conexão de instantes. Surgiu, então, "Enquanto as folhas são espalhadas pelo vento", texto originalmente mais extenso do que o definitivo. Muitas vezes, as palavras vêm como correntezas fortes, emoções sem limites, informações sem medida, levando o texto a se exceder no seu objetivo inicial, havendo assim uma certa necessidade de ajustes em favor de uma sintonia maior com a literatura e, claro, com o leitor. Escrever nem sempre é se deixar levar por todas as emoções que nos invadem, mas tentar excluir o que nos parece excesso sem, no entanto, ferir o excesso que nos impulsiona a escrever. E, nesta ansiedade natural em busca de um certo equilíbrio, muitas folhas vão sendo espalhadas pelo vento, ora encontrando um aconchego, ora vivendo em seus desassossegos.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Foi o silêncio
Foi o silêncio, my dear! Foi o silêncio que me fez calar assim
O silêncio que repousa depois de atravessar uma multidão inteira ao redor.
Percebe o que digo?
A multidão pode ser inteira, cheia de vozes, cheia de palavras, bem tal como o foi horas atrás, mas, ainda assim, suas vozes podem ser inaudíveis,
e não apenas.
Percebe agora?
Perceba que as palavras podem ser exuberantes, mas serem opacas e até invisíveis,
sem som algum a sair das bocas em movimentos e nada mais,
os lábios a gesticularem palavras num silêncio preciso.
É o silêncio, my darling! É o silêncio que repousa entre as flores do jardim, em movimentos determinados pelo vento...
O vento, my dear! O vento uiva como leão e murmura em silencio com a mais doce delicadeza,
mas não apenas.
E nem apenas o vento.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
a folha, a pedra e o rio
Preciso escrever qualquer coisa hoje e não encontro nada,
talvez a pedra que hoje vi no meio da rua
talvez a folhagem seca, seca mas bela, tão bela flutuando ao movimento do vento frio, bem frio,
aconchegante o frio e o bailar da folha, folhagens, as folhas cobrindo a pedra no meio do caminho.
Preciso escrever qualquer coisa hoje,
e lá fora encontro as palavras envolvendo as sensações,
algumas leves, tão leves e suaves e outras assim,
meio assim as sensações e eu sem saber ao certo se é a leveza ou se a correnteza é outra,
a correnteza no rio,
o rio dentro de mim e eu dentro do rio, lá dentro, lá dentro, eu navegando no rio,
a pedra e a folhagem dentro do rio, a folha flutuando, flutuando,
a folha tão bela flutuando no rio e a pedra lá no fundo
do rio.
Preciso escrever qualquer coisa hoje,
talvez eu fale de uma pedra no meio da estrada e tão logo eu fale de um rio,
mas antes e depois falarei da folha, a folha flutuando ao movimento do vento frio,
tão frio e suave, apenas o vento é o frio.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Espelho
Espelhos
Com a bagagem em suas mãos, ele fechou a porta da casa e foi em direção ao carro, decidido a não olhar para trás. Não queria desistir de ir embora e nunca mais retornar.
Ao abrir o bagageiro, deparou-se com a antiga mala herdada da mãe: a bagagem preparada na semana anterior, quando ele partiria sem olhar para trás para não se ver abandonando a casa vazia. Entretanto, olhou pelo retrovisor e viu aquela imagem que lá ficaria. Não resistiu.
Na semana seguinte, ele desistiu de bagagem. E na estrada lamentou o jardim de cores que se perdem com o tempo.
Mirrors*
With the luggage in hand, he closed the door and went toward the car determined to not look back. He did not want to give up on leaving and never returning.
As he opened the trunk, he found himself looking at the suitcase he inherited from his mother - the luggage prepared the previous week, when he would leave without looking back so that he would not have to see himself abandoning the empty house; however, he looked through the rear view mirror and captured his memories. He could not resist.
The following week, he gave up the luggage. On the road, he cried the lost colors’ garden forever.
Mirrors*
With the luggage in hand, he went toward the car determined to not look back. He did not want to give up on leaving forever.
As he opened the trunk, he found himself looking at the suitcase he inherited from his mother - the luggage prepared the previous week, when he would leave without looking back to not see himself abandoning the house; however, he looked through the rear view mirror and captured his memories. He could not resist.
The following week, he gave up the luggage. On the road, he cried the lost colors’ garden.
*Possíveis traduções (?)
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Nem você, Madalena?
Tocou a sirene uma vez. Duas. Três. Quatro vezes tocou a sirene e desta vez prolongou por quase dez segundos aquele som lá dentro da casa, e assim trouxe para aquele instante o menino de outrora: brincou de bola, fez gol, comemorou o toque de gude na outra gude que estava tão distante, ele feliz. Era fim de tarde de sábado, e ele corria em brincadeiras pela rua enquanto a sua ausência era pouco percebida em sua casa, em meio às visitas de amigos dos pais e dos irmãos mais velhos.
A sirene ecoava insistentemente, sem ele ter a menor ideia de que a casa estava vazia, sem nada na cozinha, sem nada nos quartos, sem nada a não ser uma frágil camada de poeira a cobrir o chão, as pias e a mesa da sala. Tudo o que havia restado daquele tempo era a mesa da sala, o móvel mais pesado e resistente da casa, deixado para trás, ainda no mesmo lugar de quando ele havia partido. Nada ao redor da mesa. As cadeiras haviam sido levadas, uma a uma, nem se sabe exatamente por quem; os objetos repartidos entre alguns amigos e dois ou três vizinhos mais próximos. No mais, alguns objetos vendidos, e tudo deixando de ter sentido algum.
“Para de tocar essa sirene, menino!” Enquanto ninguém aparecia para abrir a porta, ele foi tomado por recordações do menino que ele havia sido. Ele se divertia e soltava gargalhadas quando Madalena, que havia chegado de longe, em busca de emprego na cidade, gritava de lá de dentro, e resmungava, sem raiva alguma: “Diacho de menino perturbado.” Era assim que ela abria a porta para ele, enquanto repetia: “diacho, diacho de menino atentado.” Ele, minutos depois, silenciosamente, bem na ponta dos pés, atravessava a casa, abria a porta da rua, puxava-a bem cuidadosamente para não fazer barulho, e novamente tocava a sirene. Tocava-a já se contorcendo para não deixar explodir a gargalhada. Ele se divertindo só em imaginar o resmungar de Madalena, que deixava os seus afazeres na cozinha e ia abrir a porta. Madalena! Ela que, no fundo, bem raso o fundo, e quase sempre com uma expressão fechada, também se divertia com as peraltices daquele menino.
Minutos mais tarde, tudo outra vez. Ele entrava no quarto ou no banheiro e fechava a porta, de modo a Madalena entender que ele estava lá dentro. Às vezes, ele nem entrava, e outras vezes ele abria a porta, bem devagar, e saia de mansinho. Tudo novamente, mas de outra maneira. Abria a porta da sala, pulava a janela, saia pela porta do fundo, fazia qualquer coisa para driblar Madalena. Tudo para novamente tocar a sirene e imaginá-la resmungando: “deve ser o diacho daquele menino”, “não é possível que é o diacho daquele menino de novo, atazanando o meu juízo”. E ele caia na gargalhada, feliz, só em imaginar o resmungar de Madalena: “diacho de menino”.
Ainda mais feliz ele ficava quando ouvia aquele som ecoando pela casa, “ô diacho, é você que já está ai fora apertando o diacho dessa sirene outra vez?”, justo em dias que não era ele lá fora. E ela abria a porta, convicta de que era ele, resmungando embravecida: “ô diacho, é você...” Madalena ficava ruborizada de vergonha. Não era. E ele se divertia tanto! Observando-a, lodo ali atrás dela, e feliz em tanta gargalhada.
Ele e Madalena eram assim. Nos dias em que ele ficava quieto, calado pelos cantos, ela se aproximava dele, séria, com o seu jeito de afeto bem escondido, e queria lhe dar o mundo. Quando o “diacho” do menino ficava quieto demais pelos cantos, Madalena queria lhe dar o mundo. Ela perdia ainda mais a graça de tudo, quando ele ficava daquele jeito, pelos cantos. Ele, esperto que era, em alguns dias fingia, só para que ela lhe oferecesse o mundo outra vez.
Ninguém. Em toda a sua vida, ninguém havia dado tanta atenção a ela quanto o “diacho” do menino. Sem os seus toques na companhia, pouca graça havia na vida de Madalena. Ele a tocar uma, duas, três, quatro vezes, depois das suas artimanhas para sair bem de mansinho sem que ela percebesse. À noite, quando em seu quarto, Madalena sorria sozinha, feliz, uma alegria pelas peraltices do menino, ele soltando imensas gargalhadas ao seu lado, dando a ela a atenção que ninguém nunca havia lhe dado. Nas tardes de sábado, quando retornava a casa e ainda havia visitas de amigos dos pais e dos irmãos mais velhos, ele entrava direto à procura de Madalena, e ela já tão preocupada com sua demora. Ninguém percebia que ele esteve ausente, apenas ela, Madalena, ali, já com o mundo inteiro para lhe oferecer, caso ele retornasse cabisbaixo, pelos cantos. Ela se lembrava de tudo isso, sozinha, à noite, soltando sorrisos em seu quarto.
Ele, agora lá na porta, em muito se lembrou de Madalena. Uma, duas, três, quatro vezes, e sentiu uma saudade imensa.
- Ninguém! Nem você, Madalena? Preciso tanto que tente me dar o mundo inteiro outra vez!
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