domingo, 30 de dezembro de 2012

A ponte, apesar do rio


Estive pensando a respeito do que foi dito ontem na beira do rio. Novamente, o rio. O rio correndo calmo entre as margens das cidades com semelhanças e oposições, assim como podem ser as pessoas, uma coisa e outra ao mesmo tempo, e uma das coisas predomina e define aquilo que seria unidade. Por terem semelhanças, podem ser entrelaçadas numa espécie de gozo que se prolonga e se abranda em alguma superfície sobre ondas calmas; e por serem opostas a unidade se desfaz em camadas sobre uma rocha sem forma determinada.

- Mas, e a ponte? A ponte entre as duas cidades e pessoas?

Não vê que a ponte surge impetuosa e simples para interligar o que resiste ao tempo, exatamente pelas suas distâncias? Não vê que a ponte surge imponente e simples sobre o rio e assim constrói uma unicidade? Não vê que este momento foi devido à ponte, apesar do rio?

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Minutos e segundos se espremendo


Na manhã seguinte percebera que as horas do dia anterior não existiram,
e começou a admitir que nada havia sido:
os presentes embrulhados em papéis elegantes já não estavam espalhados sobre os móveis,
e do intenso prazer que ontem nem palavras existiam para defini-lo havia restado apenas os rastros.

Foi então rever o tempo.

Minutos e segundos passeando pelas salas e corredores,
tic-tac tic-tac
Extrapolavam-se. Vorazes.
Minutos e segundos se espremendo dentro das horas,
muito mais do que elas conseguiam suportar.
Minutos e segundos extrapolavam-se,
inquietantes,
dentro das horas que nem existiram.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Palavra é trigo



Palavras vãs
Palavras vão
Palavras (in)sã(nas)

Palavra (des)faz
(des)ama
(des)dita

Palavra (ben)dita
Palavra é trigo
Bendito é o pão.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O efêmero se dissipa




E quando abriu o livro guardado há anos na estante, sentiu que lá dentro não havia apenas palavras que transcreviam uma longa e comovente história. Havia mais que frases navegando em cada página, muitas páginas, mas, aparentemente, insuficientes para a amplidão das imagens e para os pensamentos que se espremiam entre si, dentro de abrigos ou sem proteção alguma. Das frestas se espalhavam o excesso de pensamentos sem filtro algum e tantos deles se perdiam, se apagavam, desapareciam em meio a algum lugar imenso, incontornável, embalado por uma musicalidade não apenas na alma! Não apenas.

Ao abrir o livro, logo sentiu um cheiro estranho, estranho demais, embora fosse um cheiro reconhecido em algum lugar da memória. Um cheiro que parecia ter saído de um frasco de perfume agradável, o frasco vazio há muito tempo e o cheiro misturado com a poeira acumulada em cada segundo das horas. Enquanto os pensamentos e os sentimentos se acomodavam em qualquer canto mais cômodo do ser, o livro permaneceu aberto em uma de suas frases mais belas, e só depois começou a ser folheado, frases relidas, algumas aleatórias e outras quase decoradas. Parágrafos inteiros como se fossem suas próprias sensações. Em cada frase, sentia um algo, algo sem nome e quase capaz de captar a perfeição do que se chamaria de real.

E o que é real? Sempre gostava de se perguntar o que era real. E, embora parecesse ser tantas coisas indefinidas, sabia sim o que era e o que apenas se assemelhava a sê-lo. Sabia o que era real dentro de si mesmo, o que era real dentro da ficção, dentro do imaginário, dentro do invisível. Era ali que estava a essência desejada. Fora isso, era pouco, era vento, era efêmero. E, mesmo sabendo se tratar do óbvio, repetiu confortavelmente: o efêmero se dissipa. Neste momento, quando folheava uma das últimas páginas do livro, algo lhe tocou, sereno, inexplicável, e num instante de êxtase leu a última frase grifada, fechou o livro, e repetiu: o efêmero se dissipa.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A suavidade e a cor acinzentada


Hoje o dia amanheceu suave. A suavidade e a cor acinzentada reveladas ao abrir a janela prenunciavam que o dia seria divergente: nada é definitivo se há qualquer espécie de tempo, e nada se esgota se não é o fim concreto e absoluto das coisas. Ou tudo é definitivo e se esgota, ainda que o tempo previsível e o concreto em seus significados plurais. Os minutos e os segundos podem ser indecifráveis, mistérios que tornam bem curto ou tão longo o tempo quase encolhido dentro das horas aleatoriamente imprevistas. E o previsível depois.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O cheiro espalhando as palavras


Na pele
O cheiro espalhando as palavras ficaram como veludo,
embalando emoções
elas ficaram.

Não apenas no ontem
as palavras
mergulhadas
no corpo,
completas.

Não foram surdas
Não foram mudas
Não foram passagens, apenas
Foram também,
e ainda depois.

sábado, 1 de setembro de 2012

No fim da avenida era o cheiro


Desceu a avenida inteira na certeza de que
Na certeza
A avenida inteira.

E nas esquinas os semáforos desaceleravam o tempo
enquanto a oscilante certeza inventava que o fim da avenida
era sem mais semáforo algum:

Era o perfume.

Tudo ao redor era o cheiro do perfume tocando antecipadamente a alma
e no fim da avenida era o cheiro eternizando um tempo.