Hoje, enquanto eu tomava café da manhã, olhava o dia lá fora e veio a mim a ideia de escrever um conto que comece assim: “Eram duas mulheres. Uma se chamava Maria e a outra também Maria. Uma era das Graças e a outra das Dores”.
De repente, a minha memória deu um zoom no tempo e evidenciou dados ainda desordenados, deixando comigo a suposição de que esta ideia não tem nada de novo. Uma sensação de que alguém bem conhecido já escreveu um conto, qualquer gênero, um texto exatamente assim. Duas Marias iguais, e diferentes. Uma era assim e a outra de outro jeito; uma pensava assim e a outra de maneira oposta.
Na perspectiva de não estar repetindo o já dito (e a depender do ponto de vista devo dizer “ilusória perspectiva”), comecei a pensar noutra coisa. Uma coisa comum, bem comum, quase o óbvio, mas fiquei ali pensando: tudo parece já ter sido dito ou repetido neste tempo pós-moderno, ou contemporâneo. Pós-Moderno é tão pós que ainda deixa polêmicas no universo conceitual: o tempo pós-moderno, a pós-modernidade cultural, o modernismo tardio, o pós-modernismo estético e outros pós.
Retornando: tudo se repete e é espalhado nesta contemporaneidade onde tudo (entre aspas, talvez) se intercala e se faz novo (a propósito, uma transcrição: as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo), sem que, contudo, cada texto se desloque ou seja deslocado de seu caráter, único, transponível tantas vezes em referências tão sutis, ou nada de referência mas apenas semelhanças casuais em tempo e espaço paralelos ou adversos.
Não sei o enredo da narrativa composta por Maria das dores e Maria das graças, as duas num mesmo texto, e nem sei se realmente vi alguma referência, e se vi, ou quem escreveu. A poesia. Foi na poesia. Foi? Mas se de fato elas assim existem dentro de um contexto literário, não sei se a das graças era a que sofria as dores e se a das dores era a que recebia mais misericórdias ou se era das Dores mesmo.
Na verdade, ao pensar nas duas Marias, eu pensei mesmo foi neste antagonismo que até rima com pós-modernismo. Uma rimazinha fraquinha, ismo com ismo, mas, por outro lado, haja Maria para discutir estes dois termos! E, ao dizer Maria, digo também João. Mas, retomando o começo da ideia, do conto, do texto:
“Hoje, enquanto tomava café da manhã, olhava o dia lá fora, e veio a mim a ideia de escrever um texto que comece assim:”. Interrompi o pensamento. A companhia tocou, ele foi até a porta e, tão indeciso quanto ao seu humor naquela manhã, ficou sem saber se abriria ou não. A companhia sem aviso prévio, o café esfriando, e ele, sem decidir se queria, abriu a porta. Era ela. Ela, propositalmente, chegou sem aviso prévio e com um sorriso largo, e ele obrigou-se a fazer o mesmo um sorriso largo. Imediatamente após aquele imprevisto, ele exclamou:
- Maria! Maria das Graças!
Ela soltou uma gargalhada, e logo em seguida afirmou não haver mais graça alguma em ele trocar o seu nome, e que ela não tinha problema nenhum em ser das dores, se era cheia de graça. E foi enfática:
- Das Dores. Maria das Dores.
Tomei mais um gole de café, e mais um, enquanto pensava na sequência da história, e pensei na possibilidade de a dor ser metamorfoseada, ela mesma se metamorfosear e alçar outros voos; deslocar-se ao encontro de algum prazer, algum gozo. Afinal, o indesejado pode ser um meio para aquilo que virá a ser alívio, o não ser para ser, e o ser para não ser. Dores e graças: nomes, apenas nomes, e o efeito de cada palavras enquanto sentidos bem ao pé da letra. Talvez, eu divagando, talvez. Talvez é um sentido que não define tanto, é instável, é indefinido, e, às vezes, o seu estado tênue é uma sensação que provoca dor. Outras vezes, causa graça.
Tomei mais um gole de café. Catei palavras, percorri a criação em busca de uma sequência, e nada. Por um tempo, nada, mas há um tempo, a criação pode ser interrompida, temporariamente, uma necessidade até, tantas vezes.
Ele ficou parado diante dela. Ela, como às vezes fazia, não entrou em sua casa naquele dia. Da mesma maneira agia Maria das Graças. Tudo era relativo. Elas estavam ali, o acaso e a intuição, elas se revelando independentes, firmes. Imprevisíveis, transcendiam ao sabor do instante, e se multiplicavam num percurso desenhado não apenas pelo imaginário.
"[...] a mala se esvaziando, a mala se esvaziando, veementemente se esvaziando, sem nem mesmo alguma peça de roupa ter sido, pelo menos, dobrada e guardada dentro dela. A mala ainda vazia, completamente vazia, e já se esvaziando, se esvaziando, o fundo, o fundo da mala tão escuro de tamanha profundidade, e totalmente escancarado para o nada. Nada ali dentro da mala que seria tão pequena para o tanto a ser transportado, e o denso cheiro de vazio dentro da sua imensidão."
quarta-feira, 4 de junho de 2014
domingo, 25 de maio de 2014
Imponentes como cavalos cavalgando
Ela passou quase o dia inteiro dentro do quarto, pintando e desfazendo quadros em seu próprio interior. Mas no início da noite, depois das horas precisas nos quadros e monólogos desfeitos, espreguiçou-se no chão, na penumbra do quarto com as portas e janelas fechadas, e inclinou a cabeça em direção à fresta da porta. Ao ter aquele opaco jato de luz refletido em seus olhos, pensou no quanto a vida podia estar diferente lá fora.
Sentiu tanta vontade de se levantar! Mas o desânimo que sutilmente havia se acumulado em seu ser era um peso quase invencível em seu corpo. Persistia em mover os braços, as pernas, as costas, os pés, mas era vencida em cada batalha. E as horas passavam alheias, imponentes como elegantes cavalos cavalgando numa estrada que parece sem fim.
Demais fragilizada, ela previu e repetia para si mesma que a sua reação tinha que ser num ímpeto. E foi assim. Surpreendendo a si mesma, ela moveu as pernas, moveu as mãos, desprendeu as suas costas do chão, sentou-se e encarou a luz agora mais opaca. Encarou a luz da fresta que se apagava e, novamente num ímpeto, levantou-se. Logo em seguida arrancou a roupa de dormir, usada desde a noite anterior, abriu as cortinas do quarto, viu que era mais de seis horas da tarde, e por um instante, sentiu muita vontade de sair dali.
Ao se encaminhar em direção a porta do quarto, viu a sua nudez estampada no imenso espelho da parede, e no corpo as marcas das dobras do lençol. E viu mais. Viu além. E aquela imagem em muito a incomodou. Ela não mais sabia exatamente quem era aquela.
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Foi nada não!
Foi nada não
Foi apenas uma bola de sabão que voou, voou, voou
E depois se transformou
Encantada
No meio do salão.
Foi nada não
Foi apenas uma emoção que rondou, rondou, rondou
E depois evaporou
Desapegada
No meio da canção.
Foi não! Foi nada não
Foi apenas o coração que acelerou, acelerou, acelerou
E depois se acalmou
Protegido
No meio da contramão.
Foi não! Foi não!
Foi nada não!
Foi apenas um instante
Belamente fotografado
No meio da estação.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
E algumas vezes era de pano
Quem olhava para ela nem desconfiava de que detrás de seus sorrisos largos havia outra, ela disfarçada de boneca de plástico, moldada para sorrir quando dispositivos são acionados por meio de baterias alcalinas. Tudo tão artificial, ela sabia, e inquietava-se: ela ruborizada, receosa de que desconfiassem que algumas vezes ela era boneca feita de pano e que o expressivo vermelho em seus lábios era linha de tecelã.
Ela sentia um temor imenso de que, inesperadamente, a bateria falhasse no meio de um sorriso escancarado em qualquer instante de contentamento. Tanto temor! E ela sentia um pavor imenso ao sentir que a linha de carretel acabasse. Logo o vermelho de seu sorriso abandonado no meio da felicidade!
Ela, a boneca de plástico e outras vezes de pano sentia alegria o dia inteiro! E tristeza apenas quando desconfiava de que o seu sorriso ininterrupto pudesse deixar de ornamentar as vitrines mais simples e as mais sofisticadas da cidade.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
A loucura rodopiava
Ele desconfiava de que a mãe era louca. E às vezes parecia completamente louca. Era-lhe difícil admitir tal estado psíquico, logo da mãe! Ele lutava contra os próprios pensamentos e dizia que não, não, não, a mãe não era louca, a minha mãe não é louca, ele repetia, rodopiando pela casa e atormentado em seu quarto. Ele rodopiava em cima da cama, na hora de dormir, rodopiava, rodopiava como um parafuso que despenca no chão, sem rumo, e rodopia, rodopia e às vezes desaparece.
Ele, apesar de muito relutar, num esforço de convencer a si mesmo de que a mãe não era louca começou a admitir que não tinha mais como enganar a si mesmo e nem adiar o tempo. Assim, impotente diante do acúmulo de cenas atormentadoras, ele, num choro profundo, manifestou a dura realidade. Entretanto, apenas para si mesmo, tudo travado em seus pensamentos.
E depois, minutos depois, destravou.
A opressão forçou tanto que ele ouviu o ruir das paredes do pensamento, e, então, ele gritou desesperadamente em seu quarto, ele escondido debaixo do cobertor. “Ela é louca. A minha mãe é louca. A minha mãe, ela é louca”. E ficou ali, angustiado, ouvindo o eco de sua própria voz rodopiando dentro do quarto e atravessando as estreitas frestas da porta e da janela. O eco que atravessava a fresta da porta se misturava a outros que circulavam na sala e demais dependências da casa,ele desesperado, enquanto o eco que atravessava a fresta da janela circulava na rua e nos apartamentos circunvizinhos. Ele ainda mais encolhido debaixo do cobertor, e o vapor quente ruborizava o seu rosto sempre tão pálido.
sábado, 15 de março de 2014
O tempo e o cristal
O tempo é um vaso de cristal
disse o filósofo ao outro,
Um vaso de cristal, repetiu
ao que o outro respondeu:
O cristal não resiste ao tempo
mas o tempo ao cristal.
portanto, o tempo pode ser vaso
mas não de cristal.
O tempo é um vaso de cristal,
persistiu o primeiro filósofo:
É tão sensível que passa, evapora, a todo instante.
Um terceiro filósofo resolveu então se manifestar:
O cristal não passa, ele dura.
Até os seus fragmentos resistem ao tempo
mas o tempo não, ele não permanece.
Ele se vai a todo instante, se torna passado.
Até mesmo o presente e o futuro passam
e o tempo já não é, pois logo se faz outro.
Entreolharam-se, os três filósofos,
enquanto o tempo passava
e o cristal resistia a ele,
ainda que em fragmentos.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
As palavras se vão
E depois as palavras desapareceram novamente. Elas desapareceram, depois de algumas ou tantas ao mesmo tempo, juntas. Harmoniosas ou não, juntas: elas saltitantes, arrumadas em fileiras, espalhadas na folha do caderno, ordenadas no livro aberto sobre a mesa e dentro de outros fechados na estante; as palavras na tela do computador e no outdoor da grande avenida; elas delirantes, sóbrias, compulsivas, e elas no silêncio: as palavras rodopiando na memória.
Elas sumiram. As palavras. Depois de (re)encontradas dentro do jarro de cristal, dentro da gaveta, no vaso de lixo, debaixo do chuveiro, em cima da estante, em cima do amontoado de livros, no meio da bagunça, no meio da prosa, colado no álbum de fotografia. Que ninguém se iluda. As palavras desaparecem. Elas somem em algum lugar que podemos chamar de névoa, labirinto, tantos nomes, tantos lugares, elas se fragmentam e depois somem.
As palavras se vão. Elas partem, vão e partem, e novamente a inquietude de buscá-las. Elas desaparecidas nas gavetas da memória e nas outras, no meio ou num canto da página, em vasos, nem todos de cristal. Elas em qualquer que seja o lugar e o prazer do encontro. Reencontro. As palavras desaparecidas estão detrás de qualquer espaço que pode ser chamado de névoa, labirinto, intuição, qualquer nome que seja lugar.
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