"[...] a mala se esvaziando, a mala se esvaziando, veementemente se esvaziando, sem nem mesmo alguma peça de roupa ter sido, pelo menos, dobrada e guardada dentro dela. A mala ainda vazia, completamente vazia, e já se esvaziando, se esvaziando, o fundo, o fundo da mala tão escuro de tamanha profundidade, e totalmente escancarado para o nada. Nada ali dentro da mala que seria tão pequena para o tanto a ser transportado, e o denso cheiro de vazio dentro da sua imensidão."
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
a folha, a pedra e o rio
Preciso escrever qualquer coisa hoje e não encontro nada,
talvez a pedra que hoje vi no meio da rua
talvez a folhagem seca, seca mas bela, tão bela flutuando ao movimento do vento frio, bem frio,
aconchegante o frio e o bailar da folha, folhagens, as folhas cobrindo a pedra no meio do caminho.
Preciso escrever qualquer coisa hoje,
e lá fora encontro as palavras envolvendo as sensações,
algumas leves, tão leves e suaves e outras assim,
meio assim as sensações e eu sem saber ao certo se é a leveza ou se a correnteza é outra,
a correnteza no rio,
o rio dentro de mim e eu dentro do rio, lá dentro, lá dentro, eu navegando no rio,
a pedra e a folhagem dentro do rio, a folha flutuando, flutuando,
a folha tão bela flutuando no rio e a pedra lá no fundo
do rio.
Preciso escrever qualquer coisa hoje,
talvez eu fale de uma pedra no meio da estrada e tão logo eu fale de um rio,
mas antes e depois falarei da folha, a folha flutuando ao movimento do vento frio,
tão frio e suave, apenas o vento é o frio.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Espelho
Espelhos
Com a bagagem em suas mãos, ele fechou a porta da casa e foi em direção ao carro, decidido a não olhar para trás. Não queria desistir de ir embora e nunca mais retornar.
Ao abrir o bagageiro, deparou-se com a antiga mala herdada da mãe: a bagagem preparada na semana anterior, quando ele partiria sem olhar para trás para não se ver abandonando a casa vazia. Entretanto, olhou pelo retrovisor e viu aquela imagem que lá ficaria. Não resistiu.
Na semana seguinte, ele desistiu de bagagem. E na estrada lamentou o jardim de cores que se perdem com o tempo.
Mirrors*
With the luggage in hand, he closed the door and went toward the car determined to not look back. He did not want to give up on leaving and never returning.
As he opened the trunk, he found himself looking at the suitcase he inherited from his mother - the luggage prepared the previous week, when he would leave without looking back so that he would not have to see himself abandoning the empty house; however, he looked through the rear view mirror and captured his memories. He could not resist.
The following week, he gave up the luggage. On the road, he cried the lost colors’ garden forever.
Mirrors*
With the luggage in hand, he went toward the car determined to not look back. He did not want to give up on leaving forever.
As he opened the trunk, he found himself looking at the suitcase he inherited from his mother - the luggage prepared the previous week, when he would leave without looking back to not see himself abandoning the house; however, he looked through the rear view mirror and captured his memories. He could not resist.
The following week, he gave up the luggage. On the road, he cried the lost colors’ garden.
*Possíveis traduções (?)
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Nem você, Madalena?
Tocou a sirene uma vez. Duas. Três. Quatro vezes tocou a sirene e desta vez prolongou por quase dez segundos aquele som lá dentro da casa, e assim trouxe para aquele instante o menino de outrora: brincou de bola, fez gol, comemorou o toque de gude na outra gude que estava tão distante, ele feliz. Era fim de tarde de sábado, e ele corria em brincadeiras pela rua enquanto a sua ausência era pouco percebida em sua casa, em meio às visitas de amigos dos pais e dos irmãos mais velhos.
A sirene ecoava insistentemente, sem ele ter a menor ideia de que a casa estava vazia, sem nada na cozinha, sem nada nos quartos, sem nada a não ser uma frágil camada de poeira a cobrir o chão, as pias e a mesa da sala. Tudo o que havia restado daquele tempo era a mesa da sala, o móvel mais pesado e resistente da casa, deixado para trás, ainda no mesmo lugar de quando ele havia partido. Nada ao redor da mesa. As cadeiras haviam sido levadas, uma a uma, nem se sabe exatamente por quem; os objetos repartidos entre alguns amigos e dois ou três vizinhos mais próximos. No mais, alguns objetos vendidos, e tudo deixando de ter sentido algum.
“Para de tocar essa sirene, menino!” Enquanto ninguém aparecia para abrir a porta, ele foi tomado por recordações do menino que ele havia sido. Ele se divertia e soltava gargalhadas quando Madalena, que havia chegado de longe, em busca de emprego na cidade, gritava de lá de dentro, e resmungava, sem raiva alguma: “Diacho de menino perturbado.” Era assim que ela abria a porta para ele, enquanto repetia: “diacho, diacho de menino atentado.” Ele, minutos depois, silenciosamente, bem na ponta dos pés, atravessava a casa, abria a porta da rua, puxava-a bem cuidadosamente para não fazer barulho, e novamente tocava a sirene. Tocava-a já se contorcendo para não deixar explodir a gargalhada. Ele se divertindo só em imaginar o resmungar de Madalena, que deixava os seus afazeres na cozinha e ia abrir a porta. Madalena! Ela que, no fundo, bem raso o fundo, e quase sempre com uma expressão fechada, também se divertia com as peraltices daquele menino.
Minutos mais tarde, tudo outra vez. Ele entrava no quarto ou no banheiro e fechava a porta, de modo a Madalena entender que ele estava lá dentro. Às vezes, ele nem entrava, e outras vezes ele abria a porta, bem devagar, e saia de mansinho. Tudo novamente, mas de outra maneira. Abria a porta da sala, pulava a janela, saia pela porta do fundo, fazia qualquer coisa para driblar Madalena. Tudo para novamente tocar a sirene e imaginá-la resmungando: “deve ser o diacho daquele menino”, “não é possível que é o diacho daquele menino de novo, atazanando o meu juízo”. E ele caia na gargalhada, feliz, só em imaginar o resmungar de Madalena: “diacho de menino”.
Ainda mais feliz ele ficava quando ouvia aquele som ecoando pela casa, “ô diacho, é você que já está ai fora apertando o diacho dessa sirene outra vez?”, justo em dias que não era ele lá fora. E ela abria a porta, convicta de que era ele, resmungando embravecida: “ô diacho, é você...” Madalena ficava ruborizada de vergonha. Não era. E ele se divertia tanto! Observando-a, lodo ali atrás dela, e feliz em tanta gargalhada.
Ele e Madalena eram assim. Nos dias em que ele ficava quieto, calado pelos cantos, ela se aproximava dele, séria, com o seu jeito de afeto bem escondido, e queria lhe dar o mundo. Quando o “diacho” do menino ficava quieto demais pelos cantos, Madalena queria lhe dar o mundo. Ela perdia ainda mais a graça de tudo, quando ele ficava daquele jeito, pelos cantos. Ele, esperto que era, em alguns dias fingia, só para que ela lhe oferecesse o mundo outra vez.
Ninguém. Em toda a sua vida, ninguém havia dado tanta atenção a ela quanto o “diacho” do menino. Sem os seus toques na companhia, pouca graça havia na vida de Madalena. Ele a tocar uma, duas, três, quatro vezes, depois das suas artimanhas para sair bem de mansinho sem que ela percebesse. À noite, quando em seu quarto, Madalena sorria sozinha, feliz, uma alegria pelas peraltices do menino, ele soltando imensas gargalhadas ao seu lado, dando a ela a atenção que ninguém nunca havia lhe dado. Nas tardes de sábado, quando retornava a casa e ainda havia visitas de amigos dos pais e dos irmãos mais velhos, ele entrava direto à procura de Madalena, e ela já tão preocupada com sua demora. Ninguém percebia que ele esteve ausente, apenas ela, Madalena, ali, já com o mundo inteiro para lhe oferecer, caso ele retornasse cabisbaixo, pelos cantos. Ela se lembrava de tudo isso, sozinha, à noite, soltando sorrisos em seu quarto.
Ele, agora lá na porta, em muito se lembrou de Madalena. Uma, duas, três, quatro vezes, e sentiu uma saudade imensa.
- Ninguém! Nem você, Madalena? Preciso tanto que tente me dar o mundo inteiro outra vez!
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
que não havia sido nada a não ser o número do telefone
Perdeu o número do telefone no meio dos papéis, anotações, rabiscos de narrativas
ou mesmo um poema depois de tudo
perdeu o número do telefone
e os olhos azuis brilhando
em sua memória o olhar bem azul
e os seus olhos em busca do número do telefone
misturado a tantos papéis sobre o armário, empilhados os papéis
desordenadamente
em meio ao desejo,
o desejo de algum telefonema assim que retornasse
daquela viagem.
Nem acreditou direito!
Nem acreditou e nem assimilou direito quando, quase no mesmo lugar, os olhos azuis reluzindo
repentinamente,
surgindo de lá,
na contramão do passeio público.
Quem, quem na contramão do passeio público? E os olhares apreensivos, mais inexplicáveis que da primeira vez, e o azul brilhando muito mais que antes, o brilho azul penetrando dentro
dos olhos negros
e o silêncio,
e o desejo de explicação, e o desejo,
o desejo de explicar que não havia sido nada a não ser o número do telefone, perdido
no meio de tantas anotações que nem eram poema,
não eram,
ainda.
ou mesmo um poema depois de tudo
perdeu o número do telefone
e os olhos azuis brilhando
em sua memória o olhar bem azul
e os seus olhos em busca do número do telefone
misturado a tantos papéis sobre o armário, empilhados os papéis
desordenadamente
em meio ao desejo,
o desejo de algum telefonema assim que retornasse
daquela viagem.
Nem acreditou direito!
Nem acreditou e nem assimilou direito quando, quase no mesmo lugar, os olhos azuis reluzindo
repentinamente,
surgindo de lá,
na contramão do passeio público.
Quem, quem na contramão do passeio público? E os olhares apreensivos, mais inexplicáveis que da primeira vez, e o azul brilhando muito mais que antes, o brilho azul penetrando dentro
dos olhos negros
e o silêncio,
e o desejo de explicação, e o desejo,
o desejo de explicar que não havia sido nada a não ser o número do telefone, perdido
no meio de tantas anotações que nem eram poema,
não eram,
ainda.
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
Num entra e sai num entra e sai num entra e sai
Ela já estava perto da porta quando disse, bem alto, que iria ali buscar qualquer coisa que eu não entendi direito o que era, tamanha a sua pressa e depois o eco da batida da porta a me confundir ainda mais. Para não dizer que eu não ouvi nada, eu só ouvi quando ela disse Mããããeee como se eu estivesse lá não sei onde, e eu bem aqui perto, feito uma louca pra fazer o melhor que posso por aquela menina.
Rosalinda sempre foi assim, num diacho de uma correria desenfreada, num entra e sai do quarto e num entra e sai do banheiro e num entra e sai por aquela porta da rua. Num entra e sai num entra e sai num entra e sai sem fim, uma coisa que nem eu e nem o pai e nem o irmão e nenhum dos avós nunca foi de ficar fazendo.
Minutos depois, coisa de uma horinha de relógio, advinha quem entra! Ela, a Rosalinda, e de novo Mãããeee, cheguei! E foi tudo o que ela disse. Quando eu vim de lá de dentro da cozinha para saber que desespero era aquele, o que eu ouvi foi só a batida da porta do quarto e o danado do eco novamente a perturbar o meu juízo que já vive meio assim de tanto entra e sai dessa menina, e de tanto bate-porta, e de tanto gritar Mãããeee e dizer lá não sei o quê.
Fui em direção ao quarto, já quase gritando:
Ôh, Menina, o que é que está acontecendo que hoje você está nesse entra e sai pior do que nos outros dias?
Mas, na mesma hora, eu fui tomada por uma voz que me socorreu e disse:
“Arelzina, Arelzina, larga essa menina pra lá, pois você sabe muito bem o que foi que ela lhe disse da última que você bateu na porta desse quarto!”
Pois bem, eu larguei pra lá. Mas fiquei com essa pergunta engasgada no meio de minha garganta, bem aqui, ó, e com o coração na boca, quase escapulindo pra fora.
Menina, o que é que está acontecendo que hoje você está nesse entra e sai pior do que dos outros dias? Você está pensando o quê, menina? Que você vai me enlouquecer feito a Almelinda? Ah, mas não vai mesmo, Rosalinda! Não sei onde foi que eu estava quando eu inventei de colocar esse nome em você! Rosa linda! De rosa você não tem é nada.
Eu ia dizer bem assim pra ela, mas a danada daquela voz que fica num entra e sai num entra e sai num entra e sai de minha cabeça falou aquelas coisas lá e o resultado foi que eu fiquei com essa coisa espinhenta bem no meio de minha garganta. Bem aqui, ó!
Rosalinda! Ah, Rosalinda! Essa menina, sei não, viu! De rosa não tem é nada. E agora acaba de vir uma coisa em minha cabeça... Ainda bem que eu não disse que de rosa ela não tem é nada. Deixa pra lá, melhor eu ficar com essa coisa espinhenta em minha garganta.
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Quase pluma, e jorrando
Ontem ela saboreou uma garrafa de vinho quando a sua pretensão era apenas uma taça, a pretensão de ser apenas uma quando desconfiava que a taça seguinte estava a um gole de proximidade de seu desejo. Dois goles, todos os goles da taça saboreados enquanto a vida se fazia pluma.
A vida era quase pluma quando, levemente ruborizada, ela desejou que a pluma flutuasse ao leve vento da noite. E então viu jorrar sobre a taça o vinho que lhe dava gozo inexplicável no corpo e dentro de algum lugar que ela não conseguia expressar qual era. Gole após gole a pluma voava e ela também flutuava com as asas que cresciam sem pressa alguma.
O voo leve. Ela queria um voo leve enquanto contemplava a pluma leve voando ao seu redor, ela reservando o impulso para a taça seguinte. Quase uma hora depois, a taça seguinte. E a vida que era pluma bailava diante do seu olhar, até que o instante presente era um novo gole escorregando dentro dela, e o gozo.
A vida era quase pluma quando ela segurou a terceira taça de cristal servida, novamente o prazer jorrando dentro dela.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Cais desordenado
Amanhã partirei novamente, com a certeza de que é sempre hora de partir e é sempre hora de chegar. Mais uma viagem de volta, a volta que pode ser para partir ou para chegar. Eu parto de um cais desordenado em suas águas ora inquietas e ora tão suavizadas, eu parto mergulhado em imensas imagens absorvidas em mim.
Dentro de mim o calmo cheiro que não se apaga com qualquer vento, ainda que vendaval; comigo, as lembranças de horas inesquecíveis e mais um contentamento do outro lado do rio! Longo, tão longo o rio, e o cais. Não, não, ó tempo! Não arrancarás de mim o doce sabor dos instantes guardados em fotografias eternizadas não apenas em meu peito, e bem sei que tu, ó tempo, não permitirás que fotografias outras partam de mim, escorregadias em seus limos tão viscosos com o tempo.
Amanhã partirei novamente e ouço a Abertura de Tannhäuser, tão intensa quanto eu neste momento. Nela, eu mergulho como se fosse o rio! A cidade encantadora e cheia de imagens guardadas em mim à margem do rio, o rio, o rio e outras imagens repousadas sobre a cama, o final do vinho ainda marcante no paladar, e o cheiro do perfume novamente a preencher recordações, algumas intraduzíveis.
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